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sábado, 11 de julho de 2020

Pastor, preciso confessar...

Olá Pastor, tudo bem? Como vai você? E a sua família? Espero que estejam todos bem e saudáveis em casa.

Sabe, nesta semana um velho amigo de Vitória da Conquista, Bahía, me ligou. Fazia tempo que não conversávamos. Na verdade, apesar de sermos amigos há quase 10 anos, a gente nunca se viu pessoalmente.
Ele me surpreendeu ao me dizer que já não aguentava mais ficar assistindo transmissões de culto de igreja pela Internet.
Que com esta pandemia, a quarentena tinha mudado muito a rotina da sua família, e que os momentos que eles costumavam ter em comunidade, junto aos irmãos para louvar e conversar, tinham acabado. E justamente era isto do que mais ele sentia falta: da comunhão da igreja.
Fiquei imaginando quantas pessoas não vem passando pelo mesmo nesta pandemia, sentindo-se isoladas, sozinhas e enclausuradas. Isto quando elas têm escolha de se protegerem, pois quando não têm, o jeito é se arriscar  a  serem contaminadas.

Particularmente, nesta quarentena, apesar de todos os problemas que estamos enfrentando, minha esposa e eu temos sido cuidados.

Tivemos a oportunidade de nos reencontrarmos pelo Zoom com muitos amigos da época de faculdade! Gente que há muito não víamos ou compartilhávamos uma boa conversa. E temos mantido um encontro semanal, todas as sextas-feiras à noite, entre 15 e 25 conexões espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Como em um oásis no tempo-espaço, nos encontramos numa sala virtual, alguns amanhecendo, outros no por-do-sol, outros já em noite plena.
Nas palavras de uma amiga deste grupo, não há momento espiritual mais agradável nesta pandemia que as 2 horas semanais que compartilhamos sobre a Palavra, entre nós mesmo e com outros novos amigos que têm se juntado ao grupo.

Esta semana, pastor, fui dar uma passadinha rápida na casa de uns amigos que são do grupo de risco, com mais idade. Mesmo do quintal da casa, do lado de fora, a vontade de conviver era tanta que passamos quase uma hora juntos, ali de pé, dividindo as novas, boas e más, que tinham ocorrido desde o nosso último encontro. Durante a conversa, comentei com eles a respeito de uma enquete  que recebemos por Whatsapp vinda da liderança da igreja, perguntando sobre do que sentíamos mais falta neste período sem atividades no templo, do que poderia ser diferente, e quando fosse possível, em que condições gostaríamos de retornar a frequentar as reuniões no templo.
Fiz a eles uma confissão, pastor, e agora para você também. Para essa última pergunta, eu respondi que, independentemente das condições, não sei se vou voltar a frequentar o templo.

Este período de quarentena me fez refletir sobre o que estivemos fazendo quando estávamos dentro daquelas espaçosas paredes. Dei-me conta de que, o que fazemos em boa parte do tempo dentro do templo em geral, não é muito diferente do que eu faço ao ligar o computador ou a televisão e assistir a uma mensagem transmitida pelo YouTube. Nada contra as pregações no templo ou na Internet. Sem dúvida que elas são edificantes e que trazem ensinamentos espirituais. Porém, vejo que isto está longe do viver o reino que Jesus nos ensinou enquanto ele estava nesta terra.

Percebi que é em encontros como estes das sextas-feiras à noite, ainda que virtuais, que tenho experimentado comunhão de verdade, assim como lá em Atos 2. Estes encontros não tem nada a ver com o templo, nem com o assistir uma mensagem deste ou daquele pregador. Ainda assim percebemos Deus ali, Jesus nos constrangendo, na alegria com os queridos, na tristeza de suas lutas e das nossas, e no compartilhar da Palavra juntos.

Pastor, quantas pessoas continuam sofrendo nestes tempos de quarentena, porque ainda não experimentaram o reino que é feito de gente que convive, e não de bancos e púlpitos? Será que não temos como lhes apresentar uma alternativa diferente daquela de um programa ou mensagem transmitida pelo YouTube? Talvez se os ajudássemos a compartilharem com outros um pouco mais de tempo, para conversarem abertamente sobre a Palavra, sem julgamentos nem certezas, e sim com disposição de ouvir e aprender uns com os outros, eles também poderiam viver o reino.

Esta noite de sexta-feira, no fim do nosso habitual encontro pelo Zoom, surgiu entre nós uma pergunta: qual é a razão de se ter um templo e toda uma cara estrutura (espaço, equipamentos, bancos, etc.) se, pela Internet, cada um de nós pode escolher uma mensagem, estudo ou pregação de nossa melhor preferência? A oferta e variedade é tanta que, provavelmente, minha escolha será muito mais atraente que qualquer programa que possa estar ocorrendo no templo em que eu costumava frequentar antes da pandemia... e é muito provável que eu também chegue à mesma conclusão após a quarentena acabar. Pois é muito mais confortável o sofá da minha casa, e muito mais interessante aquele pregador que eu sei será do meu agrado.

Então, para que mais programas sendo transmitidos? Para que sustentar toda uma estrutura física (o templo) que parece ter se tornado desnecessária para o que temos praticado dentro dela?
Porque, no fim das contas, não parece ser muito diferente o que fazemos pelo YouTube do que fazíamos sentados em um banco de igreja. Você concorda? E se não é a pregação a coisa mais importante que acontece num templo, então por que é a ela que dedicamos mais tempo? Por que é a ela que toda a estrutura é empenhada? Equipamentos de som, bancos todos para um mesmo lado, palco elevado, microfones, câmeras...

No "novo normal" que viveremos após este período, se a estrutura do templo não for redirecionada a um novo propósito além de produzir conteúdo religioso para ser consumido no local ou remotamente, esta estará fadada a minguar, pelo menos entre  os que tem facilidade de acesso às transmissões pela Internet.

Então, pastor, ensinemos os membros da igreja a serem igreja, e não mais a serem consumidores de entretenimento religioso. Que vivamos o reino ainda que pelo Zoom, para assim fazermos também com os nossos vizinhos da rua e com os nossos amigos não cristãos quando a quarentena terminar.

Eu acredito que é desta forma que realmente o reino será vivido e desfrutado por aqueles que dia a dia irão se juntar à igreja, pois será assim que eles testemunharão que agora os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o Evangelho.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Os Adventistas são estranhos

Esse post é longo, desculpem-me pela prolixidade! É isso que dá quando se fica anos sem escrever neste blog!

Alguns anos atrás eu de repente “me toquei” que nós adventistas somos muito estranhos como uma denominação cristã e que nem percebemos isso. Aliás, em países muçulmanos, como o Egito, onde meu cunhado Kleyton agora trabalha como missionário, a igreja adventista passou por apuros no ano passado quando os outros cristãos quase conseguiram passar uma lei que excluía os adventistas do grupo de igrejas cristãs. Felizmente a lei não foi aprovada (ainda) e a igreja está lutando para continuar sendo reconhecida pelo governo. Depois eu volto a falar da questão dos países muçulmanos, mas ela está relacionada com o que eu vou explicar abaixo.

Quero abordar este assunto porque ele está me incomodando há anos e também porque  eu não tenho como discutir isso com muitas pessoas, só com uma amiga nossa, a Jenny, que é a nossa única amiga verdadeiramente “GEAna” aqui onde moramos. E vai ser ótimo ter a opinião (super informada!) de vocês. Além de uma perspectiva diferente de quem está no Brasil.

Na minha opinião, uma das razões pelas quais nós acabamos não reconhecendo/descobrindo que somos estranhos é que interagimos muito pouco com pessoas de outras denominaçõea cristãs (especialmente outras igrejas protestantes) e vivemos numa “bolha” isolada. Além disso, aí no Brasil há certas campanhas evangelísticas que exploram facetas de um país católico e que acabam mascarando um pouco a nossa “estranheza”, mas já volto a falar mais sobre isso.

O dia em que fiz esta descoberta de maneira mais intensa foi uma sexta-feira à noite em que estávamos ensaiando o nosso pequeno coral na igreja de Fairview Village na região da Filadélfia (Pensilvânia). Depois de 4 tumultuados anos frequentando uma pequena igreja brasileira, nós finalmente tínhamos decidido mudar para a igreja americana que ficava há 10 minutos de casa.

A igreja também era pequena (em número de membros), mas havia algumas novas famílias vindo, incluindo uma senhora boliviana que tinha recentemente se casado com um senhor americano que tinha sido pastor luterano, nosso amigo Bob. O Bob tinha muitos talentos musicais (tinha sido inclusive organista além de pastor) e então o chamamos para juntar-se ao nosso pequeno coral. Planejamos com o pastor um programa de páscoa para o sábado à tarde que antecedia o domingo de páscoa e nosso coralzinho ia cantar duas músicas, então, obviamente, marcamos um ensaio pra sexta à noite.

(Vou abrir um parênteses aqui pra contar que por muitos anos eu li o blog e me tornei muito amiga de uma [agora ex] blogueira que fez um PhD em teologia e que é episcopal/anglicana. Minha amiga Annie sempre escrevia muito sobre a sua igreja e sobre as diferentes celebrações que eles tinham, especialmente como os filhos pequenos dela se envolviam na celebração da páscoa: lava-pés na igreja na quinta à noite, como na sexta eles removiam os enfeites da igreja e a cruz (eu acho) e sábado à noite ficavam todos de vigília, tristes na igreja e a tinham uma vibrante celebração da ressurreição de Cristo ao nascer do sol de domingo, tudo muito interessante. Ela também sempre falava da quaresma e de vários outros eventos no calendário eclesiástico cristão – que no Brasil achamos que é apenas católico, mas que na verdade também é usado e respeitado por muitos protestantes. Fim do parênteses.)

Naquela sexta à noite, quando acabou o ensaio do coral, eu olhei pro meu amigo Bob e de repente tive um “estalo.” Eu falei que devia ser muito estranho pra ele estar ali naquela noite, Sexta-feira da Paixão, na qual ele provavelmente estaria na igreja, num culto, pois é uma data tão importante para as outras denominações cristãs mas que nós adventistas não “celebramos.” Depois disso tive algumas conversas com ele e, no mesmo ano, tivemos um judeu messiânico que veio à nossa igreja para celebrarmos um Seder (Páscoa Judaica) com simbolismo cristão que foi fascinante!

Eu entendo que o calendário cristão/católico tem muitas celebrações (senão quase todas) baseadas em festivais pagãos e esta é uma forte razão para nossa igreja não segui-lo, mas não é estranho que não vemos mal nenhum em celebrar o natal, mas não se celebra a páscoa? (Só porque é num domingo? só porque a data é relacionada com o paganistmo? O natal também é!) No Brasil às vezes se esquece que a igreja adventista oficialmente não celebra a páscoa porque a igreja adventista, super oportunista em termos de evangelismo (o que não é uma coisa ruim, só estou sendo chata), estabeleceu os “Calvários” – reuniões durante a Semana Santa que aproveitam a “onda” da semana mais celebrada da religião cristã e católica.

Aqui nos Estados Unidos obviamente não há isso, mesmo porque as igrejas protestantes principais (batista, metodista, etc), celebram mesmo só o domingo de páscoa, não tem nada na quinta-feira, sexta e sábado (são só católicos, episcopais e os luteranos que tem cultos/cerimônias nestes dias, pra celebrar a última ceia, a morte de cristo e a ressurreição ao nascer do sol de domingo). Vocês sabiam que existe lava-pés nestas denominações, mas só uma vez por ano na quinta feira que antecede a Sexta-feira Santa? (Nós, por outro lado, temos lava-pés nas "Santas-Ceias" que ocorrem em épocas aleatórias durante o ano, sendo que muitas outras denominações cristãs e os católicos, fazem a "comunhão" com o pão e vinho/suco em TODOS os cultos, qual é a razão das datas aleatórias da Santa Ceia?). 

À partir desta experiência com meu amigo Bob, eu comecei prestar mais atenção e a perceber a “estranheza” do adventismo em outros aspectos também. Guardamos o sábado, que foi estabelecido na criação, mas todas as outras festas judaicas foram “abolidas” porque já tiveram seu cumprimento em Jesus, é isso? Eu imagino que a posição oficial da igreja é que se alguém quiser celebrar as festas judaicas (páscoa judaica, dia da expiação, tabernáculos – esqueci os nomes judaicos) não há problema, mas que esta prática não tem nada a ver com a salvação. (como? Se as festas apontavam para Cristo sim, mas em vários lugares da Bíblia fala-se que deveriam ser celebradas em perpetuidade-- OK, pelo povo de Israel).

Tem uma outra coisa que me irrita ainda mais profundamente (e que é um ponto de contenção importante nos países muçulmanos). Como é que dizemos seguir os conselhos alimentares de Levíticos 11, mas não advogamos seguir uma dieta Kosher ou não comemos somente carne abatida da maneira própria (Kosher ou Hallal – deixando o sangue escorrer como as escrituras falam para fazer)? Aqui nos Estados Unidos a maioria dos Adventistas são ovo-lacto vegetarianos, mas ao redor do mundo não, e se come qualquer carne "limpa" de qualquer proveniência (exceto porco e frutos do mar). E tem outro problema! Os judeus que seguem a dieta Kosher, NUNCA misturam queijo com carne, já que a Bíblia fala para não comer o filhote da vaca com o leite da mãe. Inclusive eu conheci alguns judeus israelenses-americanos (não praticantes da religião, mas sim dos costumes) que eram ovo-lacto vegetarianos porque é muito mais fácil seguir a dieta Kosher sem comer carne. Eu não estou querendo ser uma chata legalista, só estou querendo questionar as nossas práticas que parecem ser bem "seletivas" -- seguimos a Bíblia literalmente em alguns lugares, e em outros não. (e eu NÃO SEI qual seria a solução para estes problemas, obviamente).

Não estou querendo argumentar que a alimentação "estilo Kosher" seria um ponto super-sério “de salvação,” mas  como explicar não comer carne de porco e frutos do mar e não seguir outras partes do capítulo 11 de Levíticus (comer carne abatida de qualquer jeito, com o sangue, e carne de vaca com queijo?).

Claro que mesmo o cumprimento parcial das leis alimentares é BOM, e é precisamente o que causa problemas nos países islâmicos. Uma das razões para os adventistas serem SUPER estranhos em países muçulmanos e às vezes NÃO considerados cristãos é que adventistas não comem porco e carnes imundas! Para os muçulmanos num país como o Egito, todos os cristãos adoram os santos e imagens (algo que é contrário aos princípios dos muçulmanos -- e que a igreja protestante na verdade procurou restaurar, retirando o culto às imagens) e são "sujos" -- isto é, comem carnes imundas. Então eles ficam super confusos com os adventistas, obviamente. Além de que nós também guardamos os sábado, então somos meio judeus (os "inimigos" do Islam), o que complica ainda mais as coisas.

Bom, onde é que eu estou querendo chegar com tudo isso? Estou apenas querendo saber a sincera opinião de vocês sobre estes assuntos, pode ser?

Um último comentário é que uma das coisas que me incomoda no fato de nós termos deixado de lado todos estes "rituais" do cristianismo/catolicismo é que rituais são coisas naturais ao ser humano e fazem com que crenças abstratas tornem-se mais significativas, especialmente para crianças -- daí a beleza da Santa Ceia como simbolismo, por exemplo. Acho que pode haver muita beleza simbólica e profunda nos rituais tradicionais do cristianismo e talvez isso seja algo que nos falta.



OK, terminei. Será que alguém conseguiu chegar até o fim? :-)

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Quem ama sua vida... - Parte II

Há algumas semanas estive em São Paulo a trabalho, visitando clientes e prospectando outros. Claro que também não pude perder a oportunidade de visitar alguns amigos, que sempre me acolhem quando viajo. Um destes amigos é um senhor francês, que de vez em quando vem ao Brasil, e sempre que podemos nos encontramos, pois fizemos alguns negócios juntos os quais nos permitiram desenvolver fortes laços de confiança.
Em uma lanchonete na Av. Paulista, ele foi me contando como estava sua vida, de uns percalços e outros. Depois de alguns minutos, sua companheira veio ao nosso encontro, como quem já esperasse que a conversa estivesse por terminar. Bem, na verdade ele também, mas eu me atrasei ao encontro e claro que tivemos que atrasar o assunto. Quando ela chegou, nos apresentamos e eu estava por perguntar o que eles estavam fazendo de novo, então ele deixou que ela me contasse.
Ela fotografa gente marginalizada da sociedade, gente a quem muitas vezes não queremos dar atenção, em seus habitats originais, nas ruas, nos barracos. O hobby dele desde que o conheci foi fotografar arte de rua pelo mundo (http://urbanhearts.typepad.com), grafitti ou outras técnicas, que por serem efêmeras, fotografando-as ele as eterniza em seus arquivos e eventualmente em livros de fotografia. Este hobby tem lhe dado a oportunidade de conhecer muitos, muitos artistas que há alguns anos têm mandado a ele peças em papel pelo correio para que ele as cole em paredes nas cidades pelos países que visita: Bélgica, Coréia, China, Japão, Alemanha, Brasil entre outros, e ele tem devolvido o favor com suas fotos aos artistas.
Juntos, agora porém, eles tem levado "bolhas de felicidade" aos que jamais teriam a oportunidade de apreciar arte (http://theartfabric.com), dentros de suas "casas", nas paredes da rua onde moram, nas latas de lixo ao lado de onde dormem.
Esta experiência os fez pensar até que se decidiram por uma vida bem diferente do que eles tinham levado até então, abrindo mão de confortos e conveniências pessoais para buscar mudar a vida de algumas pessoas pelo mundo, conforme foram me contando. Eu não pude deixar de me emocionar e dizer a eles: "Eu tenho inveja de vocês! Vocês perceberam e abraçaram uma missão por amor que, para eu entendê-la, levou anos e muito sofrimento, e vocês a alcançaram de um modo tão singelo...". "Eu tenho um péssima notícia pra vocês..." eu lhes disse, "vocês são mais cristãos do que imaginam!".
Eu não mencionei mas ambos são ateus, e ver lágrimas nos seus olhos ao me contarem as suas sensações ao passarem horas com pessoas em necessidade, colecionando suas histórias e buscando nos poucos recursos disponíveis como trazer pequenas bolhas de felicidade a estes seres tão humanos quanto qualquer um de nós, fez-me pensar o quanto temos falhado como cristãos, olhando para nós mesmos, buscando defender nosso "prêmio", nosso próprio interesse.

Quem ama a sua vida, perdê-la-á... (João 12:25)

A conversa com estes amigos ditos ateus - não porque sejam contra Deus mas simplesmente porque não O conhecem e porque o que ouviram falar dEle até aqui não fez o menor sentido para a vida deles - trouxe-me uma perspectiva da minha própria experiência com Deus que me envergonhou. É como se eu estivesse procurando uma resposta mas fazendo as perguntas erradas.
O que Deus quer comigo? Soa bonito perguntar isso. Eu diria que resposta é mais básica do que possamos pensar: simplesmente viver junto, pertinho, não só comigo mas com todos nós! Pode parecer ingênuo mas Ex. 25:8 e Ap. 21:3 não deixam dúvidas! A questão agora é: e eu? Quero viver junto dEle? De verdade? Ou é na promessa de vida mansa que está meu real interesse?
Por fim, nossa conversa terminou três horas depois, depois de várias histórias inusitadas de doação e senso de missão, de cristianismo e fé, de lágrimas e esperança, numa descoberta mútua do que realmente importa, do que é e sente Deus por nós, e espera de nós.
Precisamos abrir os olhos e perceber que, parafraseando Brian McLaren, talvez eles estejam mais preparados do que imaginamos, talvez mais do que nós mesmos, ditos cristãos.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Quem ama a sua vida... - Parte I

Nesta semana, com a família saímos de carro a uma viagem do tipo bate-e-volta no mesmo dia, 400km o trecho. Claro que, para minimizar o tédio das crianças durante a viagem, saímos bem de madrugada e com os dois pequenos (já não tão pequenos) dormindo com um Dramin cada um no banco de trás. E foi assim que, durante as quase 5 horas de viagem enquanto eu dirigia, pude meditar sobre um verso que há muito me faz pensar nas possibilidades de sentidos que Jesus quis comunicar.

Quem ama a sua vida, perdê-la-á; mas quem aborrece a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna. João 12:25
Quem ama "a sua vida"... seja "esta vida" a terrena ou a futura, amá-la significa inexoravelmente perdê-la.
Eu tenho me perguntado por quê tem sido mais importante pra nós o que fazemos no templo (construção onde se reúnem os membros da igreja, palavra comumente confundida com este edifício) do que fazemos fora dele. Explico-me, por que nos preocupamos tanto com as liturgias, as formas, a frequência de presença aos cultos, com a qualidade dos programas ali desenvolvidos, ou mais ironicamente com a gravata dos que vão à frente do salão? O que realmente estamos buscando com estas práticas? O que queremos alcançar através destes mecanismos? Por mais que esta reflexão nos doa na alma, descobrir nossas motivações revelam-nos muito sobre nós mesmos.
Uma noite, durante uma reunião de amigos a quem amo muito, um destes me abordou com uma pergunta que parecia intrigá-lo há muito tempo: "Gabriel, por que você não vai aos cultos de domingo nem de quarta-feira?". Confesso que me assustei com as possibilidades de onde esta pergunta poderia nos conduzir na conversa, considerando a diversidade de pessoas ali presentes, ao ponto de perguntar-lhe de volta: "Você tem certeza de que quer entrar neste assunto?". Esta questão é tão delicada, pois pode nos expor ao ponto de sermos incapazes de reconhecer-nos ou de aceitar nossas motivações. Por isso eu estava assustado, preocupado com as consequências dessa conversa.
Por que temos que associar o nível de espiritualidade, ou proximidade de relacionamento com Deus, com a assiduidade aos programas promovidos institucionalmente no templo? Não quero de modo algum condenar os cultos nos templos, nada de errado com eles, pois acredito que não são eles o cerne do problema IMHO, mas sim nós mesmos.
A começar pelos pressupostos da pergunta: "Por que você não vai aos cultos"... Falamos dos cultos como se fossem eventos promocionais, ocasiões preparadas para o consumo em massa de entretenimento religioso. Música, luzes, eloquência, emoção, choro, alegria, reflexão. Intuitivamente esperamos que o que ocorra ali seja de algum modo uma experiência que nos impressione, que fique um bom tempo em nossa mente como um excelente filme de sábado à noite, emocionante, imprevisível e que nos faça sentir bem.
Por favor, não quero eu julgar você, mas se os seus argumentos à pergunta do meu amigo têm algo do tipo: "Eu vou porque lá eu me alimento espiritualmente, recarrego minhas baterias, recupero minhas forças para a semana...", o culto provavelmente não parece muito diferente de um bom programa de televisão. Você foi ao culto, como se este fosse um lugar, em busca de algo para si, para receber em seu benefício, no exercício pleno do individualismo desta nossa geração.
Porém, não seria o culto algo que se presta, algo que se oferece, que se rende a Alguém? Não deveríamos ir ao templo (e não ao culto) com a expectativa mais de doarmos do que de recebermos? De nos entregarmos mais que de saciar-nos? Não estaríamos invertendo completamente o sentido das palavras para atender às nossas motivações inconscientes?
Ainda que tudo isto tenha uma nobre razão: nossa vida eterna. Não seria esta forma de pensar um reflexo do amor que temos pela nossa própria vida, ainda que seja a eterna?
Quem ama a sua vida, perdê-la-á...
O que é que não estamos enxergando? O que deixamos de ver ou perceber na nossa relação com Deus, a qual nos parece muitas vezes tão insuficiente e inconstante?
E se mudássemos intencionalmente nossas palavras? Será que este seria o início de uma mudança em nossas motivações? Esta mudança nos aproximaria mais de Deus?

Ainda tenho mais perguntas que respostas...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

De volta às origens tradicionais

Creio que não tive a oportunidade de contar a todos, mas me mudei de São Paulo para a cidade de Londrina-PR já faz 2 meses.E nesta mudança, outras mudanças também aconteceram, e uma delas foi a de voltar a freqüentar uma igreja tradicional.
É interessante você perceber como rapidamente sua presença é notada, mesmo que pouquíssimos venham falar com você, ainda que a igreja tenha uns 600 membros. Confesso que ri muito, pensando no episódio, quando em um sábado pela manhã eu estava no fundo da igreja, em pé pois havia cedido o meu lugar a uma senhora com bebê, e um pastor (eu sei que era departamental pois o vi fazendo um anúncio na classe da ES) passou por mim, parou, olhou para mim (claro que a visão da minha lustrosa pessoa hoje já não é mais o estereótipo adv) e me perguntou se eu era adventista... eu quase perguntei a ele a mesma coisa mas confesso que me contive rsrs... Ele não perguntou meu nome, não perguntou de onde vim, me perguntou novamente se eu era batizado, e quando disse que sim, bateu no meu ombro e seguiu...
Conheci recentemente o regente do coral, um cara muito legal, empolgado com música, 20 e tantos anos, se esforçando para conduzir um grupo de uns 80 coralistas, na sua maioria mais jovens que ele próprio, buscando louvar e inovar através deste ministério. Claro que no coral não está somente ele na condução, há também um diretor do coral, um diretor de jovens, um pastor de jovens e outros líderes envolvidos. O grande desafio deles que eu percebi nesta noite, ao participar do ensaio, foi a de motivar os coralistas a participarem seriamente da proposta. Antes do ensaio propriamente dito, ouvi uns 15 minutos de "admoestações" sobre o que se espera de um coralista comprometido, do sistema biométrico de controle de presença que será implantado, do sorteio de um "brinde especial" para os assíduos aos ensaios, e dos descontos nas "programações pagas" a que estes assíduos terão direito. Fiquei triste ao perceber porque um outro amigo, que veio de Sampa também (o conheci na NS), se desmotivou a participar do coral... ali hoje, o mesmo estava acontecendo comigo.
No fim do ensaio, peguei uma carona pra casa com o regente e conversamos, durante os parcos 7 minutos que levam da igreja até minha casa, sobre a frustração dele e minha sobre a apresentação do coral que ocorreu no sábado passado. Cantamos no sábado pela manhã esta canção, numa versão em português, com o coral cheio e igreja lotada. A frustração do regente foi o fato de que a apresentação durou somente uma música, e de como é difícil fazer as pessoas participarem, da igreja se envolver, e de que na apresentação do domingo ele "assassinou" a música devido a uma entrada mau indicada... aí eu contei a ele a minha frustração: de que o louvor tenha sido feito somente pelo coral, pois minha filha, na hora do coro, simplesmente abriu boca com toda a vontade a ponto de fazer meia igreja se voltar a ela, e quando ela percebeu se escondeu debaixo do banco. Contei a ele minha frustração por perceber que as motivações por participar do coral me parecem tão distorcidas, e que a expectativa da "audiência" da igreja desvia ainda mais do que eu entendo que deveria ser o foco... Então ele comentou "mas ela já conhecia a música..." e eu disse "o ponto não é se ela já conhecia a música, mas que ela tentou expressar seu louvor a Deus como tinha o costume e se retraiu!"...
Bem, eu conto isto a vocês não porque quero dizer que está tudo errado, e eu é que estou certo. Conto isto a vocês a esperança de que vocês me ajudem a resgatar o sentimento e o envolvimento que um dia tivemos (ou pelo menos eu tive) quando convivíamos e louvávamos juntos em um galpão frio de uma noite de sexta-feira, num sítio próximo a cidade de Juquitiba-SP, por exemplo... não consigo ver saída para esta situação sem criar um sentimento de rompimento, sem chocar as pessoas ou senão me afastar e continuar pedido ao Papai do Céu que me use para o que for da Sua vontade...
Por que é tão difícil transmitir às pessoas uma visão de serviço por amor somente? Cuja motivação não seja o entretenimento emocional ou intelectual mas a satisfação de perceber que Deus nos está usando para fazer milagres a pessoas que jamais imaginariam que um dia seriam tocadas simplesmente por um exemplo de amor, compaixão e serviço?
O que estamos fazendo de errado? O que eu estou fazendo de errado?...

"Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. Vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno."

sábado, 25 de julho de 2009

A igreja é....

Simples, lúdico, porém mais do que verdade...



Que Deus abençoe a todos!

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Necessidade presente

Numa segunda-feira recente estive participando de uma reunião do GEA, sentado ao sereno de uma fria noite paulistana, na Praça do Relógio na Cidade Universitária da USP. Estávamos ali umas 12 pessoas, em roda no chão, conversando sobre um assunto exposto por 2 dos geanos presentes. Confesso que revivi um passado que me dá muita saudade...

No fim deste papo, surgiu um assunto cuja motivação já vem há algum tempo cutucando os geanos atuais: criar a igreja do GEA. Há muitos anos eu ouço falar nisto, mas esta foi a primeira vez onde eu vi (talvez tenha acontecido antes, com outros grupos, e eu não estive presente) este assunto sendo levantado seriamente.
Interessante foi perceber que a motivação para uma igreja geana, apesar de parecer óbvia, não estava muito clara ou coesa no grupo. Alguns diziam que faltava uma igreja na região da Cidade Universitária, outros que precisavam evangelizar os universitários da USP, outros queriam um lugar mais fixo ou confortável para se reunirem (tava frio pra caramba nessa noite) ...
Uma das grandes questões apresentadas nesta discussão foi: como é que se forma uma igreja? O Francisco (pai de um dos geanos presente) nos contou como, em 2 experiências anteriores vividas por ele, foi o processo de organizar o grupo fundador, encontrar um local, levantar fundos para construção, enfrentar situações complicadas com a comunidade local, etc., até que enfim a igreja estava construída e as pessoas freqüentando. Foi interessante perceber que estas experiências estavam fortemente focadas em atender às necessidades das comunidades locais. Uma luta muito difícil, sem dúvida.

Então fiquei me perguntando:
"Para que queremos, como geanos, estabelecer uma igreja?"
Até o próprio conceito "igreja" estava meio confuso na cabeça da moçada: igreja prédio, igreja comunidade, igreja organização... e por aí vai. Tinha de tudo na discussão, e claro que, como estes conceitos não são naturalmente explícitos, estava difícil chegar num consenso que conduzisse a uma convergência nos interesses e ações propostas.

Isso me lembrou uma sessão de Discipulado V que tivemos na Nova Semente há pouco mais de um ano atrás. Estávamos discutindo comunidade e igreja com um grupo de umas 20 pessoas, e eu pedi a todos que respondessem uma pergunta, que escreverei a seguir, porém que guardassem a primeira resposta que viesse a cabeça, sem muitos esclarecimentos, sem pensar muito, mas só a primeira resposta, para no fim discutirmos a respeito. Eis a pergunta:
"Preciso ser membro de uma igreja para ser salvo?"
Depois da pergunta, cada um guardou para si a sua resposta intuitiva, e continuamos com a discussão planejada para aquela manhã. No fim da discussão eu retomei a questão, perguntando quais foram as respostas obtidas daquela questão no início da nossa sessão de Discipulado V. O interessante desta questão não é a resposta em si, mas as premissas intuitivamente assumidas para chegar a uma ou a outra resposta. Me explico: obviamente - e provavelmente semelhante à sua resposta, meu leitor - a grande maioria optou pela resposta negativa, e foi apresentada uma série de razões para isso:
  • "Minha salvação não depende de um livro de membros de uma igreja."
  • "Quem concede a salvação é Deus, e não uma religião."
  • "Esta é uma questão que só depende de Deus e de mim, e não de uma instituição humana."
  • ... entre outras tantas...
Para minha surpresa, e dos demais presentes, um amigo que há poucos meses havia se decidido por Deus publicamente, e já servia com amor exemplar à comunidade, disse em alto e bom tom:
"A minha resposta é SIM!"
Sem demora, todos quase que gritando ficaram perguntando que como isso era possível, e como ele poderia dizer tal coisa, e por aí vai... claro que pediram a ele que se explicasse para que pudéssemos, por mais louco que parecesse, entender as razões dele para tal afirmação. Foi nesse momento que ouvi a lição para a qual eu não estava preparado, para a qual eu não tinha mais nada a dizer... Ele disse:
"Claro que é sim... Turma, se não fosse por vocês, eu não estaria aqui!!"
Foi aí que caiu a ficha, e que todos tivemos a oportunidade de perceber que o nosso conceito intuitivo de igreja estava mais do que torcido... que o seu conceito original já não mais estava vivo entre nós, presente como uma chama viva que aquece só em lembrar dela. Para este amigo, a resposta era diferente somente porque seu conceito de igreja era diferente, e claro que ele não estaria ali conosco se não o tivéssemos acolhido, abraçado, amado antes de qualquer coisa. Será que conseguiremos resgatar esta visão de igreja?

Voltando à nossa reunião na Praça do Relógio, após contar sobre este evento do Discipulado, ficamos discutindo sobre este assunto, de como "criar uma igreja" não tem nada a ver com prédio, lugar para se reunir, estilo de adoração, doutrina ou mesmo com quem apresentará as mensagens. Igreja, meus queridos, tem a ver com gente, pessoas, almas... tem a ver com o que há de mais precioso para o coração de Deus, pois Ele entregou o próprio Filho para isso. E nós, muitas vezes, colocamos nossas forças e intelecto em tantas outras coisas, e ficamos chamando isso de igreja...

Bem, claro que esta discussão no GEA ainda tem pra dar muito pano pra manga, mas estou feliz em saber que este sentimento, esta necessidade por uma experiência mais relevante com Deus está se tornando mais real e presente, a ponto de levantar iniciativas como esta. Que Deus os abençoe, e muito.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sistema de consumo

Olá amigos,
Este sábado tive a feliz experiência de acompanhar nosso amigo Marcão em sua classe da ES. Como foi bacana ver em alguns que ali estavam a expressão, nas palavras compartilhadas, de uma busca por uma religião mais genuína e relevante à nossa vida.

Pensando mais sobre este assunto, lembrei-me de um post que encontrei há meses atrás num blog, cujo autor chamado Paulo Brabo eu desconheço completamente, e cujas palavras me fizeram refletir mais recentemente sobre a minha relação com a igreja institucionalizada, e também agregam um pouco mais de pimenta às discussões que temos tido aqui.
Tomo a liberdade de transcrever abaixo um trecho que me pareceu central à sua ácida discussão, cuja leitura completa eu mais do que recomendo. Aliás, creio que uma análise crítica sobre o post aqui citado pode por uma boa dose de reflexões e discussão neste nosso contexto.
Bem, aí vai o trecho e o post está nos links dos parágrafos acima:
"As pessoas que consomem igreja não têm em geral qualquer consciência de que estão se dobrando a um sistema de consumo, mas as evidências estão ali para quem quiser ver. A igreja não é um lugar a que se vai ou um grupo de pessoas que se abraça, mas uma marca que se veste, um produto que se consome continuamente. Tudo de bom que costumamos dizer sobre a igreja reflete, secretamente, essa nossa obsessão com o consumo – “o louvor foi uma benção”, “o sermão foi profundo”, “o coro cantou com perfeição”, “a palavra atingiu os corações”, “Deus falou comigo”. Em outra palavras, tudo que temos a dizer sobre a experiência da igreja são slogans. Na qualidade de consumidores, o que fazemos é retroalimentar nossa dependência, promovendo continuamente nosso produto na esperança de angariar mais consumidores e portanto mais legitimação." Paulo Brabo
O que acharam de suas idéias?

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

De volta ao sonho original

Num destes encontros de fim de ano, num jantar poucos dias antes do Natal, estive conversando com um velho amigo sobre a experiência religiosa que herdamos... ele ainda freqüenta a mesma igreja que freqüentei na minha infância. Sendo ele membro atuante e um dos anciãos da igreja, me fez um comentário durante nossa conversa que me fez refletir:
"Gabriel, você deveria estudar menos a eclesiologia e mais soteriologia..."
Fiquei pensando: "Será que estou 'desperdiçando' meu tempo ao insistir em tentar compreender o que Deus espera de cada um de nós como membros do Corpo de Cristo? Será que estarei dando mais importância a esta questão do que a outros aspectos ainda mais importantes do meu relacionamento com Deus? Será que já esgotei a paciência daqueles com quem tenho compartilhado esta minha inquietude?"... provavelmente esta última questão seja a mais verdadeira...

Talvez seria mais simples voltar e se conformar com a tão esgarçada realidade sobre a qual crescemos e desenvolvemos nossa vida religiosa, criando racionalizações que justifiquem nossa posição na velha corrente que ainda hoje conduz congregações que freqüentamos ou costumávamos freqüentar. Não quero dizer com isto que está tudo errado, não. Tenho certeza que Deus usou, usa e continuará usando estes instrumentos para alcançar e atender a milhares de pessoas que encontram nestas congregações as respostas para seus vazios... porém, infelizmente, já não tenho mais encontrado ali respostas para os meus...

Perdoem-me se faço perguntas demais... gosto delas não pelas respostas que elas podem proporcionar, mas pelas reflexões que elas estimulam...

Então te pergunto, meu amigo(a) leitor(a) deste post:
Quais questões fundamentais nos ajudariam a refletir sobre onde devemos focar nossos esforços, nesta busca por uma experiência mais relevante com Deus?
Seria no estudo da salvação, como sugerido por este amigo, o caminho para um encontro com Deus?
Considerando sobre a soteriologia, percebi que este foi um dos assuntos, se não o assunto mais estudado durante praticamente toda a minha vida cristã. Acredito que para muitos de nós tenha sido da mesma forma. Lembro-me de quando estudamos diferentes doutrinas bíblicas, das mais variadas, de um modo ou de outro sempre tínhamos aplicações ou conclusões que nos levavam a este ponto: a salvação humana. Esta deve ser a razão pela qual um dia escolhemos seguir a Jesus, e começamos a trilhar este longo e estreito caminho, na esperança de uma vida futura. A salvação é o fim (o objetivo) deste caminho, e praticamente toda nossa experiência cristã gira em torno deste fim.

Mas será que Deus criou o homem precisando de salvação? Não, claro que não. É óbvia a resposta... Mas se o homem não foi criado precisando de salvação, então para que fim foi criado? Qual foi o objetivo de Deus ao nos criar, e hoje sermos seres racionais, de livre arbítrio, diferentes, complexos, volúveis, teimosos, ansiosos, indiferentes, felizes, deprimidos, cheios e carentes? Para que foi então?

Sei que não é possível comparar as razões de Deus com as humanas, mas me atrevo a fazer uma analogia com os meses em que Deise e eu estávamos planejando ter o nosso primeiro filho. Depois de 3 anos de casamento, era quase impossível não ficar olhando que bochechas encontraríamos nos carrinhos de bebês que passeavam pela rua. Na primeira oportunidade que tínhamos, pegávamos no colo os bebês de amigos que íamos visitar ou vinham à nossa casa. Ficávamos imaginando como seria o crescimento do nosso filho no primeiro ano, qual o nome dele, o que ensinaríamos a ele, quais experiências sensoriais proporcionaríamos a ele que o estimulariam e o fariam feliz... era uma ansiedade incontida junto de um medo reprimido o que sentimos durante aqueles 9 meses de espera, até que Felipe chegou. E depois deste dia, tem sido uma nova descoberta a cada dia... Digam-me, quem de vocês, dos que já ansiaram e tiveram filhos, não se sentiram assim?

Uma das conclusões que tiro desta analogia é que Deus nos criou para Ele próprio. Bem, esta conclusão não é originalmente minha (Col 1:16), mas acho que ela expressa algo bem mais profundo ao que normalmente não damos a devida atenção: quando lemos "para Ele", acredito que seja para suprir essa ansiedade que Deus teve antes de nossa própria criação, não somente na criação da raça humana, mas nossa pessoal mesmo, assim como a ansiedade de nossos pais por nós. Isto me lembra uma conversa, à mesa da cozinha, na casa da Dna. Helena, num sábado à noite, com mais 2 ou 3 de nós e Deus participando...

A próxima cena desta história é que Deise e eu deixamos de ser um casal apenas, e a partir daquele dia passamos a ser... isso, uma família! Agora temos mais alguém para nós mesmos! Por nós mesmos! Agora somos uma família!

Voltando à minha última pergunta... não seria esta a intenção de Deus ao ter nos criado? Não seria este o objetivo dEle? O de ter uma família dEle? À sua imagem e semelhança (Gen 1:26,27), para alegria, glória e regozijo dEle? Eu realmente acredito que foi por isso que viemos a existir, assim como Felipe também veio...

Bem, onde entra isto tudo no contexto deste texto? Meu ponto é que se o fim da criação do homem por Deus foi o de ter uma família (Apoc 21:3), a salvação é um meio, somente um meio para este fim. Por favor, não me entendam mal. Não quero aqui menosprezar um plano divino, mas sim colocá-lo na perspectiva correta: a salvação é um plano B, um desvio, uma correção de rumo, é somente um pequeno trecho, fora do imenso caminho que Deus um dia traçou para nós, que nos traz de volta. Um caminho que começou na semana da criação, num sonho divino de sermos Sua família, sonhado para durar a eternidade...

Claro que a salvação é importante, mas ela não é o fim em si mesma, não é o objetivo primordial como tem sido ensinado e pregado pela maioria das religiões cristãs que eu tenho ouvido. Não há dúvida que, em nossa atual condição, precisamos dela para voltarmos ao plano original, mas a nossa prática religiosa tem dado muito mais ênfase ao plano B do que ao plano original. Estamos tão preocupados com o meio, que não damos a devida importância ao fim. Interessante foi, e acredito que não por coincidência, encontrar justamente esta mesma reflexão numa ilustração no último capítulo (7) que até aqui li num livro que estou devorando bem devagar...

Mais uma pergunta:
Quais motivações seriam legítimas para conduzir nossa busca por respostas que tornem nossa vida cristã mais real e autêntica?
Quando falamos de salvação, a motivação trazida à tona é a do nosso próprio benefício, um prêmio como se este pudesse ser merecido, cujo processo para alcançá-lo somente depende de nós mesmos, individualmente e exclusivamente... afinal de contas, "a salvação é pessoal"! Onde na Bíblia estão escritas estas palavras? Seria esta visão egocêntrica do plano da salvação fruto do individualismo que hoje mais do que reina em nossa sociedade e cultura ocidental? A de sermos um conjunto de indivíduos desconexos, cujos laços são irrelevantes para o objetivo almejado? Será que é isso que a Bíblia chama de Corpo de Cristo (Col 1:18-20)?

Se é assim que estaremos "preparados" para quando Jesus voltar, e alcançarmos nossa almejada salvação, todo nosso "preparo" não vai servir para mais nada além daquele momento de resgate, pois não saberemos conviver com o que virá em seguida . O "preparo" que temos recebido e pregado até aqui, geralmente se concentra somente na salvação individual, em como percorrer o trecho de desvio, o plano B, e não fazemos a menor idéia de quanto nos falta o "preparo" para trilharmos o caminho do plano primeiro de Deus, no sonho original, o de sermos a família dEle, o Corpo de Cristo.

Portanto, para isto, também temos que nos "preparar", não somente para o trecho de desvio mas para todo o caminho, para o objetivo divino, para a razão pela qual fomos criados, fazendo do Reino de Deus uma realidade concreta e imediata. Começando aqui, entre nós... fazendo do plano original de Deus, um grupo de pessoas a quem ele chama de Seus (II Cro 7:14), uma prática real, constante, relevante e feliz na nossa vida, reconstruindo em nós aquilo que Jesus um dia chamou de Minha Igreja (Mat 16:18).

terça-feira, 29 de julho de 2008

Uma proposta nada convencional...

Neste último sábado, eu estava com minhas crianças na locadora de vídeo escolhendo o que assistiríamos naquela noite e no dia seguinte, tentando regulamentar o que seria nossa diversão noturna televisiva. Como é natural de toda criança, meu filho estava voando em pensamentos, distraído com as tantas opções que as prateleiras ofereciam, enquanto ele passava na frente de outro cliente da loja, que tentava visualizar as opções que a figura do meu pequeno lhe cobria da vista. Assim que percebi, o chamei de imediato, e pedi desculpas ao pai de família que ali estava tentando se decidir por um filme. Para amenizar a situação, fiz um comentário qualquer com aquele senhor e estabelecemos uma pequena conversa. Ele já havia morado no Chile por 2 anos, transferido pela empresa, entre outras coisas em comum sobre as quais conversamos. No fim, ele me deu seu cartão de visitas da multinacional onde trabalha, e ficamos de nos contatar em outra oportunidade.

Não é a primeira vez, aliás para mim tem sido relativamente freqüente, que tenho esta experiência, onde pessoas completamente desconhecidas, por alguma razão inexplicável, dão espaço e demonstram interesse em estabelecer contatos, ainda que superficiais a princípio, como quem procura fazer amigos. Agora mesmo me lembrei que isso aconteceu novamente 2 semanas atrás, quando estive em Curitiba... claro que a pessoa não era curitibana, era carioca... hehehehe
Tenho procurado, na medida do possível, dar continuidade a estas experiências, no sentido de tentar estreitar o contato, ainda que somente pela curiosidade de saber até onde estes relacionamentos podem se desenvolver.

Claro que, numa cidade como São Paulo, muitos de nós quase que imediatamente pensamos quais seriam os perigos possíveis em situações como esta. Procuramos nos preservar, não revelando detalhes pessoais, ou mesmo não abrindo maiores informações além daquelas que já consideramos públicas e que não trariam risco a nossa privacidade ou segurança pessoal.
É impressionante!! Como estas questões nos levam a ficarmos isolados uns dos outros! E ainda que tentemos estabelecer um certo contato, ficamos medindo tudo: as perguntas, as respostas, as possíveis pistas sobre os prováveis interesses do outro em estabelecer ou dar continuidade àquela conversação. Quanto stress só pra uma conversa de corredor de locadora!!!

Confesso que, apesar de minhas tentativas em dar continuidade a estes contatos, eu raramente tenho tido sucesso em mantê-las. Não porque não queira, mas imagine: o que você diria - ou numa situação mais fácil - escreveria num e-mail para um completo desconhecido que com quem você por acaso, sem maiores razões aparentes, estabeleceu um contato? Isso sem parecer interesseiro, intrometido, carente, entre outras tantas suspeitas mútuas que uma situação como esta motiva. É algo completamente awkward, estranho...

Ok. Então vamos experimentar um caminho mais fácil... que tal tentar estreitar relacionamentos com pessoas que já conhecemos? Não falo de pessoas próximas, mas daquelas que de vez em quando você encontra, vocês se reconhecem mutuamente, mas nunca houve nenhum motivo suficientemente forte que os aproximasse por um tempo mais significativo além daqueles 45 segundos de encontro casual, onde cumprimentos impessoais são trocados, demonstrando a boa educação que as respectivas mães lhes deram quando criança. Ainda assim, se você tentar prolongar, ainda que seja por mais 1 minuto somente, um contato como este, eu duvido que as mesmas questões citadas no fim do parágrafo anterior não venham à tona novamente. Então, como vencer este isolamento que nos afasta uns dos outros?... ou talvez a pergunta seja:
"Por que precisamos nos aproximar de outros? Eu estou tão bem comigo mesmo!"
O livro "The Search to Belong", de Joseph R. Mayers, descreve um conceito chamado de "espaços de relacionamentos", o qual define 4 categorias - público, social, pessoal e íntimo - de como as pessoas se sentem ligadas a determinados grupos ou situações, conforme seu interesse, tempo, sentimento, experiências anteriores, etc.
Este modelo parece explicar muitos dos comportamentos que vemos nos mesmos indivíduos em diferentes grupos associativos, desde igrejas, festas, jogos de futebol, até clubes sociais. Ainda assim, em maior ou menor grau, a pergunta anterior continua persistindo...

Há alguns anos atrás, devido a uma indicação que eu até hoje não consegui identificar, um senhor francês me contatou por e-mail na empresa onde então eu trabalhava, para nos oferecer um sistema que ele representava. Interessado pelo produto, eu dei continuidade às conversações que se estabeleceram, porém nunca ocorreu um negócio concreto entre as empresas. Ainda assim, toda vez que ele vinha ao Brasil nos encontrávamos pra conversar, falar das novidades locais, das conquistas pessoais, dos hobbies, da família, entre outras amenidades de interesse mútuo, situação que ainda se repete pelo menos uma vez ao ano nos últimos 7 anos.
Há 3 anos atrás, ele me contatou indignado: ele tinha planejado passar uma férias em diversas cidades do nordeste do Brasil com a esposa e o filho, porém ele não conseguia comprar passagens aéreas locais aos preços divulgados pelos sites das companhias porque ele não tinha uma coisa chamada CPF, e por telefone queriam cobrar mais do dobro do valor anunciado. Foi então que decidi dar um passo além: ofereci a ele comprar todas as passagens que ele precisasse no meu cartão de crédito (não preciso dizer que arrebentei meu limite) e quando ele chegasse, ele me pagaria. Graças a Deus deu tudo certo: comprei as passagens, ele viajou feliz com a família, e depois ainda me levou pra jantar no Figueiras - um restaurante bacana nos Jardins de São Paulo - sem deixar de quitar a dívida...
Desde então, posso dizer que nos tornamos amigos, talvez não tão chegados quanto outros (como ser amigo de um francês? Deve haver um livro pra isso...), mas o suficientemente próximos para estabelecermos fortes bases de confiança, inclusive para os negócios que temos recentemente feito juntos aqui no Brasil.
Com certeza, vejo que um fator decisivo para que este contato, com origem meramente comercial, se desenvolvesse em uma amizade foi o de ambos termos dado um passo além daqueles que mantivemos durante os primeiros anos de contato. E hoje, ele tem me ajudado inclusive quando passei por dificuldades financeiras...

Então eu retorno à pergunta:
"Por que precisamos nos aproximar uns dos outros?"
Há 2 semanas atrás, nosso amigo Osmar esteve por estas bandas, e conseguiu me fazer uma visita (coisa rara!!). Ambos tivemos a oportunidade de reencontrar alguns velhos amigos que não víamos há anos, e como foi importante poder reviver aqueles momentos que, em outros tempos, eram tão comuns e corriqueiros, e hoje parecem tão escassos e ao mesmo tempo tão valiosos...
Em um determinado momento, após colocarmos pra fora diversos assuntos que estavam pendentes, o Osmar me perguntou algo como:
"Gabriel, para onde você pretende levar toda esta leitura, discussão e busca que você está fazendo a respeito de comunidade e igreja?"
Confesso que eu ainda não tinha parado pra pensar no assunto tão explicitamente quanto a resposta requerida pela pergunta exigia, e ainda não cheguei a uma conclusão completa a respeito da mesma, porém acho que me arrisco a dizer:
Estou tentando encontrar um grupo de pessoas que esteja em uma busca semelhante, a de estabelecer o Reino de Deus aqui e agora entre nós, de modo a recriarmos aquilo que chamamos de igreja em um modelo não baseado em estruturas organizacionais, mas no interesse mútuo de estarmos preocupados com o objeto do amor de Deus: pessoas, gente... pelo simples prazer de perceber que nos fizemos, sem querer, discípulos dEle...
Hey!!... HEY!!!

Ainda tem alguém por aí?... por aí?... por aí?... por aí?...

terça-feira, 1 de julho de 2008

A Igreja ao Gosto do Freguês

Lindões, o texto abaixo me chegou através da boa e velha mailinglist do GEA (Grupo de Estudantes Adventistas). Trata-se de um artigo publicado na revista evangélica Chamada da Meia-Noite, que aborda profecias bíblicas sob um ponto de vista dispensacionalista, de março de 2005. O link para a matéria é
http://www.chamada. com.br/mensagens /igreja_ao_ gosto.html

Reproduzo a matéria aqui na esperança de que ele possa fomentar alguma discussão. O que acham??


A Igreja ao Gosto do Fregues

O movimento chamado "igreja ao gosto do freguês" está invadindo muitas denominações evangélicas, propondo evangelizar através da aplicação das últimas técnicas de marketing. Tipicamente, ele começa pesquisando os não-crentes (que um dos seus líderes chama de "desigrejados" ou "João e Maria desigrejados" ). A pesquisa questiona os que não freqüentam
quaisquer igrejas sobre o tipo de atração que os motivaria a assistir às reuniões. Os resultados do questionário mostram as mudanças que poderiam ser feitas nos cultos e em outros programas para atrair os "desigrejados" , mantê-los na igreja e ganhá-los para Cristo. Os que desenvolvem esse método garantem o crescimento das igrejas que seguirem cuidadosamente suas diretrizes aprovadas. Praticamente falando, dá certo!

Duas igrejas são consideradas modelos desse movimento: Willow Creek Community Church (perto de Chicago), pastoreada por Bill Hybels, e Saddleback Valley Church (ao sul de Los Angeles) pastoreada por Rick Warren. Sua influência é inacreditável. Willow Creek formou sua própria associação de igrejas, com 9.500 igrejas-membros. Em 2003, 100.000 líderes de igrejas assistiram no mínimo a uma conferência para líderes realizada por Willow Creek. Acima de 250.000 pastores e líderes de mais de 125 países participaram do seminário de Rick Warren ("Uma Igreja com Propósitos"). Mais de 60 mil pastores recebem seu boletim semanal.

Visitamos Willow Creek há algum tempo. Pareceu-nos que essa igreja não poupa despesas em sua missão de atrair as massas. Depois de passar por cisnes deslizando sobre um lago cristalino, vê-se o que poderia ser confundido com a sede de uma corporação ou um shopping center de alto
padrão. Ao lado do templo existe uma grande livraria e uma enorme área de alimentação completa, que oferece cinco cardápios diferentes. Uma tela panorâmica permite aos que não conseguiram lugar no santuário ou que estão na praça de alimentação assistirem aos cultos. O templo é espaçoso e moderno, equipado com três grandes telões e os mais modernos sistemas de som e iluminação para a apresentação de peças de teatro e musicais.

Sem dúvida, Willow Creek é imponente, mas não é a única megaigreja que tem como alvo alcançar os perdidos através dos mais variados métodos. Megaigrejas através dos EUA adicionam salas de boliche, quadras de basquete, salões de ginástica e sauna, espaços para guardar equipamentos, auditórios para concertos e produções teatrais, franquias do McDonalds, tudo para o progresso do Evangelho. Pelo menos é o que dizem. Ainda que algumas igrejas estejam lotadas, sua freqüência não é o único elemento que avaliamos ao analisar essa última moda de "fazer igreja".

O alvo declarado dessas igrejas é alcançar os perdidos, o que é bíblico e digno de louvor. Mas o mesmo não pode ser dito quanto aos métodos usados para alcançar esse alvo. Vamos começar pelo marketing como uma tática para alcançar os perdidos. Fundamentalmente, marketing traça o perfil dos consumidores, descobre suas necessidades e projeta o produto (ou imagem a ser vendida) de tal forma que venha ao encontro dos desejos do consumidor. O resultado esperado é que o consumidor compre o produto. George Barna, a quem a revista Christianity Today
(Cristianismo Hoje) chama de "o guru do crescimento da igreja", diz que tais métodos são essenciais para a igreja de nossa sociedade consumista. Líderes evangélicos do movimento de crescimento da igreja reforçam a idéia de que o método de marketing pode ser aplicado - e
eles o têm aplicado - sem comprometer o Evangelho. Será?

Em primeiro lugar o Evangelho, e mais significativamente a pessoa de Jesus Cristo, não cabem em nenhuma estratégia de mercado. Não são produtos a serem vendidos. Não podem ser modificados ou adaptados para satisfazer as necessidades de nossa sociedade consumista. Qualquer tentativa nessa direção compromete de algum modo a verdade sobre quem é Cristo e do que Ele fez por nós. Por exemplo, se os perdidos são considerados consumidores, e um mandamento básico de marketing diz que o freguês sempre tem razão, então qualquer coisa que ofenda os perdidos deve ser deixada de lado, modificada ou apresentada como sem importância. A Escritura nos diz claramente que a mensagem da cruz é "loucura para os que se perdem" e que Cristo é uma "pedra de tropeço e rocha de ofensa" (1 Co 1.18 e 1 Pe 2.8).

Megaigrejas adicionam salas de boliche, quadras de basquete, salões de ginástica e sauna, auditórios para concertos e produções teatrais, franquias do McDonalds.

Algumas igrejas voltadas ao consumidor procuram evitar esse aspecto negativo do Evangelho de Cristo enfatizando os benefícios temporais de ser cristão e colocando a pessoa do consumidor como seu principal ponto de interesse. Mesmo que essa abordagem apele para a nossa geração
acostumada à gratificação imediata, ela não é o Evangelho verdadeiro nem o alvo de vida do crente em Cristo.

Em segundo lugar, se você quiser atrair os perdidos oferecendo o que possa interessá-los, na maior parte do tempo estará apelando para seu lado carnal. Querendo ou não, esse parece ser o modus operandi dessas igrejas. Elas copiam o que é popular em nossa cultura - músicas das
paradas de sucesso, produções teatrais, apresentações estimulantes de multimídia e mensagens positivas que não ultrapassam os trinta minutos. Essas mensagens freqüentemente são tópicas, terapêuticas, com ênfase na realização pessoal, salientando o que o Senhor pode oferecer, o que a
pessoa necessita - e ajudando-a na solução de seus problemas.

Essas questões podem não importar a um número cada vez maior de pastores evangélicos, mas, ironicamente, estão se tornando evidentes para alguns observadores seculares. Em seu livro The Little Church Went to Market (A Igrejinha foi ao Mercado), o pastor Gary Gilley observa
que o periódico de marketing American Demographics reconhece que as pessoas estão: ...procurando espiritualidade, não a religião. Por trás dessa mudança está a procura por uma fé experimental, uma religião do coração, não da cabeça. É uma expressão de religiosidade que não dá valor à doutrina, ao dogma, e faz experiências diretamente com a divindade, seja esta
chamada "Espírito Santo" ou "Consciência Cósmica" ou o "Verdadeiro Eu". É pragmática e individual, mais centrada em redução de stress do que em salvação, mais terapêutica do que teológica. Fala sobre sentir-se bem, não sobre ser bom. É centrada no corpo e na alma e não no espírito. Alguns gurus do marketing começaram a chamar esse movimento de "indústria da experiência" (pp. 20-21).

Existe outro item que muitos pastores parecem estar deixando de considerar em seu entusiasmo de promover o crescimento da igreja atraindo os não-salvos. Mesmo que os números pareçam falar mais alto nessas "igrejas ao gosto do freguês" (um número surpreendente de igrejas nos EUA (841) alcançaram a categoria de megaigreja, com 2.000 a 25.000 pessoas presentes nos finais de semana), poucos perceberam que o aumento no número de membros não se deve a um grande número de "desigrejados" juntando-se à igreja.

Durante os últimos 70 anos, a percentagem da população dos EUA que vai à igreja tem sido relativamente constante (mais ou menos 43%). Houve um crescimento, chegando a 49% em 1991 (no tempo do surgimento dessa nova modalidade de igreja), mas tal crescimento diminuiu gradualmente, retornando a 42% em 2002 (www.barna.org) . De onde, então, essas megaigrejas, que têm se esforçado para acomodar pessoas que nunca se interessaram pelo Evangelho, conseguem seus membros? Na maior parte, de igrejas menores que não estão interessadas ou não têm condições financeiras de propiciar tais atrações mundanas. O que dizer das
multidões de "desigrejados" que supostamente se chegaram a essas igrejas? Essas pessoas constituem uma parcela muito pequena das congregações. G.A. Pritchard estudou Willow Creek por um ano e escreveu um livro intitulado Willow Creek Seeker Services (Baker Book House,
1996). Nesse livro ele estima que os "desigrejados" , que seriam o público-alvo, constituem somente 10 ou 15% dos 16.000 membros que freqüentam os cultos de Willow Creek.

O Evangelho e a pessoa de Jesus Cristo não cabem em nenhuma estratégia de mercado. Não são produtos a serem vendidos.

Se essa percentagem é típica entre igrejas "ao gosto do freguês", o que provavelmente é o caso, então a situação é bastante perturbadora. Milhares de igrejas nos EUA e em outros países se reestruturaram completamente, transformando- se em centros de atração para "desigrejados" . Isso, aliás, não é bíblico. A igreja é para a maturidade e crescimento dos santos, que saem pelo mundo para alcançar os perdidos. Contudo, essas igrejas voltaram-se para o entretenimento e
a conveniência na tentativa de atrair "João e Maria", fazendo-os sentirem-se confortáveis no ambiente da igreja. Para que eles continuem freqüentando a "igreja ao gosto do freguês", evita-se o ensino profundo das Escrituras em favor de mensagens positivas, destinadas a fazer as
pessoas sentirem-se bem consigo mesmas. À medida que "João e Maria" continuarem freqüentando a igreja, irão assimilar apenas uma vaga alusão ao ensino bíblico que poderá trazer convicção de pecado e verdadeiro arrependimento. O que é ainda pior, os novos membros recebem uma visão psicologizada de si mesmos que deprecia essas verdades. Contudo, por pior que seja a situação, o problema não termina por aí.

A maior parte dos que freqüentam as "igrejas ao gosto do freguês" professam ser cristãos. No entanto, eles foram atraídos a essas igrejas pelas mesmas coisas que atraíram os não-crentes, e continuam sendo alimentados pela mesma dieta biblicamente anêmica, inicialmente
elaborada para não-cristãos. Na melhor das hipóteses, eles recebem leite aguado; na pior das hipóteses, "alimento" contaminado com "falatórios inúteis e profanos e as contradições do saber, como falsamente lhe chamam" (2 Tm 6.20). Certamente uma igreja pode crescer numericamente seguindo esses moldes, mas não espiritualmente.

Além do mais, não há oportunidades para os crentes crescerem na fé e tornarem-se maduros em tal ambiente. Tentando defender a "igreja ao gosto do freguês", alguns têm argumentado que os cultos durante a semana são separados para discipulado e para o estudo profundo das Escrituras. Se esse é o caso, trata-se de uma rara exceção e não da regra!

Como já notamos, a maioria dessas igrejas, no uso do seu tempo, energia e finanças tem como alvo acomodar os "desigrejados" . Conseqüentemente, semana após semana, o total da congregação recebe uma mensagem diluída e requentada. Então, na quarta-feira, quando a congregação usualmente se reduz a um quarto ou a um terço do tamanho normal, será que esse
pequeno grupo recebe alimentação sólida da Palavra de Deus, ensino expositivo e uma ênfase na sã doutrina? Dificilmente. Nunca encontramos uma "igreja ao gosto do freguês" onde isso acontecesse. As "refeições espirituais" oferecidas nos cultos durante a semana geralmente são
reuniões de grupos e aulas visando o discernimento dos dons espirituais, ou o estudo de um "best-seller" psico-cristão, ao invés do estudo da Bíblia.

Talvez o aspecto mais negativo dessas igrejas seja sua tentativa de impressionar os "desigrejados" ao mencionar especialistas considerados autoridades em resolver todos os problemas mentais, emocionais e comportamentais das pessoas: psicólogos e psicanalistas. Nada na história da Igreja tem diminuído tanto a verdade da suficiência da Palavra de Deus no tocante a "todas as coisas que conduzem à vida e à piedade" (2 Pe 1.3) como a introdução da pseudociência da psicoterapia no meio cristão. Seus milhares de conceitos e centenas de metodologias não-comprovados são contraditórios e não científicos, totalmente não-bíblicos, como já documentamos em nossos livros e artigos anteriores. Pritchard observa: ...em Willow Creek, Hybels não somente ensina princípios psicológicos, mas freqüentemente usa esses mesmos princípios como guias interpretativos para sua exegese das Escrituras - o rei Davi teve uma crise de identidade, o apóstolo Paulo encorajou Timóteo a fazer análise e Pedro teve problemas em estabelecer seus limites. O ponto crítico é que princípios psicológicos são constantemente adicionados ao ensino de Hybels" (p. 156).

Durante minha visita a Willow Creek, o pastor Hybels trouxe uma mensagem que começou com as Escrituras e se referia aos problemas que surgem quando as pessoas mentem. Contudo, ele se apoiou no psiquiatra M. Scott Peck, o autor de The Road Less Travelled (Simon & Schuster, 1978) quanto às conseqüências desastrosas da mentira. Nesse livro, M. Scott Peck declara (pp. 269-70): "Deus quer que nos tornemos como Ele mesmo (ou Ela mesma)"!

Nada na história da Igreja tem diminuído tanto a verdade da suficiência da Palavra de Deus no tocante a "todas as coisas que conduzem à vida e à piedade" (2 Pe 1.3) como a introdução da pseudociência da psicoterapia no meio cristão.

A Saddleback Community Church está igualmente envolvida com a psicoterapia. Apesar de se dizer cristocêntrica e não centrada na psicologia, essa igreja tem um dos maiores números de centros dos Alcoólicos Anônimos e patrocina mais de uma dúzia de grupos de ajuda
como "Filho s Adultos Co-Dependentes de Viciados em Drogas", "Mulheres Co-Viciadas Casadas com Homens Compulsivos Sexuais ou com Desordens de Alimentação" e daí por diante. Cada grupo é normalmente liderado por alguém "em recuperação" e os autores dos livros usados incluem psicólogos e psiquiatras (www.celebraterecov ery.com). Apesar de negar o uso de psicologia popular, muito dela permeia o trabalho de Rick Warren, incluindo seu best-seller The Purpose Driven Life (A Vida Com Propósito), que já rendeu sete milhões de dólares. Em sua maior parte, o livro fala de satisfação pessoal, promove a celebração da recuperação e está cheio de psicoreferências tais como "Sansão era dependente".

A mensagem principal vinda das igrejas psicologicamente motivadas de Willow Creek e Saddleback é a de que a Palavra de Deus e o poder do Espírito Santo são insuficientes para livrar uma pessoa de um pecado habitual e para transformá-la em alguém cuja vida seja cheia de fruto e agradável a Deus. Entretanto, o que essas igrejas dizem e fazem tem sido exportado para centenas de milhares de igrejas ao redor do mundo.

Grande parte da igreja evangélica desenvolveu uma mentalidade de viagem de recreio em um cruzeiro cheio de atrações, mas isso vai resultar num "Titanic espiritual". Os pastores de "igrejas ao gosto do freguês" (e aqueles que estão desejando viajar ao lado deles) precisam cair de
joelhos e ler as palavras de Jesus aos membros da igreja de Laodicéia (Ap 3.14-21). Eles eram "ricos e abastados" e, no entanto, deixaram de reconhecer que aos olhos de Deus eram "infelizes, miseráveis, pobres, cegos e nus". Jesus, fora da porta dessas igrejas, onde O colocaram
desapercebidamente, oferece Seu conselho, a verdade da Sua Palavra, o único meio que pode fazer com que suas vidas sejam vividas conforme Sua vontade. Não pode existir nada melhor aqui na terra e na Eternidade!