segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

De volta ao sonho original

Num destes encontros de fim de ano, num jantar poucos dias antes do Natal, estive conversando com um velho amigo sobre a experiência religiosa que herdamos... ele ainda freqüenta a mesma igreja que freqüentei na minha infância. Sendo ele membro atuante e um dos anciãos da igreja, me fez um comentário durante nossa conversa que me fez refletir:
"Gabriel, você deveria estudar menos a eclesiologia e mais soteriologia..."
Fiquei pensando: "Será que estou 'desperdiçando' meu tempo ao insistir em tentar compreender o que Deus espera de cada um de nós como membros do Corpo de Cristo? Será que estarei dando mais importância a esta questão do que a outros aspectos ainda mais importantes do meu relacionamento com Deus? Será que já esgotei a paciência daqueles com quem tenho compartilhado esta minha inquietude?"... provavelmente esta última questão seja a mais verdadeira...

Talvez seria mais simples voltar e se conformar com a tão esgarçada realidade sobre a qual crescemos e desenvolvemos nossa vida religiosa, criando racionalizações que justifiquem nossa posição na velha corrente que ainda hoje conduz congregações que freqüentamos ou costumávamos freqüentar. Não quero dizer com isto que está tudo errado, não. Tenho certeza que Deus usou, usa e continuará usando estes instrumentos para alcançar e atender a milhares de pessoas que encontram nestas congregações as respostas para seus vazios... porém, infelizmente, já não tenho mais encontrado ali respostas para os meus...

Perdoem-me se faço perguntas demais... gosto delas não pelas respostas que elas podem proporcionar, mas pelas reflexões que elas estimulam...

Então te pergunto, meu amigo(a) leitor(a) deste post:
Quais questões fundamentais nos ajudariam a refletir sobre onde devemos focar nossos esforços, nesta busca por uma experiência mais relevante com Deus?
Seria no estudo da salvação, como sugerido por este amigo, o caminho para um encontro com Deus?
Considerando sobre a soteriologia, percebi que este foi um dos assuntos, se não o assunto mais estudado durante praticamente toda a minha vida cristã. Acredito que para muitos de nós tenha sido da mesma forma. Lembro-me de quando estudamos diferentes doutrinas bíblicas, das mais variadas, de um modo ou de outro sempre tínhamos aplicações ou conclusões que nos levavam a este ponto: a salvação humana. Esta deve ser a razão pela qual um dia escolhemos seguir a Jesus, e começamos a trilhar este longo e estreito caminho, na esperança de uma vida futura. A salvação é o fim (o objetivo) deste caminho, e praticamente toda nossa experiência cristã gira em torno deste fim.

Mas será que Deus criou o homem precisando de salvação? Não, claro que não. É óbvia a resposta... Mas se o homem não foi criado precisando de salvação, então para que fim foi criado? Qual foi o objetivo de Deus ao nos criar, e hoje sermos seres racionais, de livre arbítrio, diferentes, complexos, volúveis, teimosos, ansiosos, indiferentes, felizes, deprimidos, cheios e carentes? Para que foi então?

Sei que não é possível comparar as razões de Deus com as humanas, mas me atrevo a fazer uma analogia com os meses em que Deise e eu estávamos planejando ter o nosso primeiro filho. Depois de 3 anos de casamento, era quase impossível não ficar olhando que bochechas encontraríamos nos carrinhos de bebês que passeavam pela rua. Na primeira oportunidade que tínhamos, pegávamos no colo os bebês de amigos que íamos visitar ou vinham à nossa casa. Ficávamos imaginando como seria o crescimento do nosso filho no primeiro ano, qual o nome dele, o que ensinaríamos a ele, quais experiências sensoriais proporcionaríamos a ele que o estimulariam e o fariam feliz... era uma ansiedade incontida junto de um medo reprimido o que sentimos durante aqueles 9 meses de espera, até que Felipe chegou. E depois deste dia, tem sido uma nova descoberta a cada dia... Digam-me, quem de vocês, dos que já ansiaram e tiveram filhos, não se sentiram assim?

Uma das conclusões que tiro desta analogia é que Deus nos criou para Ele próprio. Bem, esta conclusão não é originalmente minha (Col 1:16), mas acho que ela expressa algo bem mais profundo ao que normalmente não damos a devida atenção: quando lemos "para Ele", acredito que seja para suprir essa ansiedade que Deus teve antes de nossa própria criação, não somente na criação da raça humana, mas nossa pessoal mesmo, assim como a ansiedade de nossos pais por nós. Isto me lembra uma conversa, à mesa da cozinha, na casa da Dna. Helena, num sábado à noite, com mais 2 ou 3 de nós e Deus participando...

A próxima cena desta história é que Deise e eu deixamos de ser um casal apenas, e a partir daquele dia passamos a ser... isso, uma família! Agora temos mais alguém para nós mesmos! Por nós mesmos! Agora somos uma família!

Voltando à minha última pergunta... não seria esta a intenção de Deus ao ter nos criado? Não seria este o objetivo dEle? O de ter uma família dEle? À sua imagem e semelhança (Gen 1:26,27), para alegria, glória e regozijo dEle? Eu realmente acredito que foi por isso que viemos a existir, assim como Felipe também veio...

Bem, onde entra isto tudo no contexto deste texto? Meu ponto é que se o fim da criação do homem por Deus foi o de ter uma família (Apoc 21:3), a salvação é um meio, somente um meio para este fim. Por favor, não me entendam mal. Não quero aqui menosprezar um plano divino, mas sim colocá-lo na perspectiva correta: a salvação é um plano B, um desvio, uma correção de rumo, é somente um pequeno trecho, fora do imenso caminho que Deus um dia traçou para nós, que nos traz de volta. Um caminho que começou na semana da criação, num sonho divino de sermos Sua família, sonhado para durar a eternidade...

Claro que a salvação é importante, mas ela não é o fim em si mesma, não é o objetivo primordial como tem sido ensinado e pregado pela maioria das religiões cristãs que eu tenho ouvido. Não há dúvida que, em nossa atual condição, precisamos dela para voltarmos ao plano original, mas a nossa prática religiosa tem dado muito mais ênfase ao plano B do que ao plano original. Estamos tão preocupados com o meio, que não damos a devida importância ao fim. Interessante foi, e acredito que não por coincidência, encontrar justamente esta mesma reflexão numa ilustração no último capítulo (7) que até aqui li num livro que estou devorando bem devagar...

Mais uma pergunta:
Quais motivações seriam legítimas para conduzir nossa busca por respostas que tornem nossa vida cristã mais real e autêntica?
Quando falamos de salvação, a motivação trazida à tona é a do nosso próprio benefício, um prêmio como se este pudesse ser merecido, cujo processo para alcançá-lo somente depende de nós mesmos, individualmente e exclusivamente... afinal de contas, "a salvação é pessoal"! Onde na Bíblia estão escritas estas palavras? Seria esta visão egocêntrica do plano da salvação fruto do individualismo que hoje mais do que reina em nossa sociedade e cultura ocidental? A de sermos um conjunto de indivíduos desconexos, cujos laços são irrelevantes para o objetivo almejado? Será que é isso que a Bíblia chama de Corpo de Cristo (Col 1:18-20)?

Se é assim que estaremos "preparados" para quando Jesus voltar, e alcançarmos nossa almejada salvação, todo nosso "preparo" não vai servir para mais nada além daquele momento de resgate, pois não saberemos conviver com o que virá em seguida . O "preparo" que temos recebido e pregado até aqui, geralmente se concentra somente na salvação individual, em como percorrer o trecho de desvio, o plano B, e não fazemos a menor idéia de quanto nos falta o "preparo" para trilharmos o caminho do plano primeiro de Deus, no sonho original, o de sermos a família dEle, o Corpo de Cristo.

Portanto, para isto, também temos que nos "preparar", não somente para o trecho de desvio mas para todo o caminho, para o objetivo divino, para a razão pela qual fomos criados, fazendo do Reino de Deus uma realidade concreta e imediata. Começando aqui, entre nós... fazendo do plano original de Deus, um grupo de pessoas a quem ele chama de Seus (II Cro 7:14), uma prática real, constante, relevante e feliz na nossa vida, reconstruindo em nós aquilo que Jesus um dia chamou de Minha Igreja (Mat 16:18).

domingo, 4 de janeiro de 2009

Feliz Ano Novo?

Apesar do ponto de interrogação acima, eu desejo que 2009 seja um ano feliz e, felizmente, cada ano que passa em minha vida tem sido sempre feliz, em geral mais ainda que o anterior. A dúvida vem da situação complicada em que o mundo se encontra no limiar deste novo ano, particularmente no país onde resido no momento. Mas as coisas materiais não devem nos preocupar, não é mesmo? O que mais importa é a certeza de que não pertencemos a esta terra, que estamos aqui transitoriamente.

Eu gostaria, acima de tudo, de começar o ano "de pé direito," escrevendo neste blog, procurando me comunicar com vocês meus amigos, já que poucos me acompanham no meu blog em inglês. É estranho que eu criei este blog nos idos de 2007, uau!! -- precisamente dois anos atrás, dia 4 de janeiro de 2007!!! -- e apenas escrevi três postagens até hoje, que triste, não? Neste ínterim, eu escrevi 475 posts no meu outro blog, mas nenhum deles é na minha língua materna, e talvez apenas um ou dois tratem de assuntos que discutimos aqui. Então, quero começar a escrever mais por aqui. Voltarei em breve então, e quero terminar dizendo novamente:

Feliz Ano Novo!!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

"Como entrar no Reino em dois dias"

Um fato que o leitor da Bíblia logo descobre é que ela é impiedosa na hora de dizer quem ele é. Não precisa chegar lá em Romanos e ler que “todos pecaram, e destituídos estão da glória de Deus” (3:23), logo nos primeiros capítulos de Gênesis fica bem claro o tipo de sujeitos que nós, como pertencentes da raça humana, somos. Mas o leitor da Bíblia consegue continuar a leitura e então descobre um outro fato: a Bíblia também carrega nas tintas na hora de descrever o tipo de pessoas que nós podemos ser. Vencedores, impolutos, justos, amorosos, benignos, fiéis, corajosos, compassivos, misericordiosos, cheios de paz e serenidade e movidos a esperança.

Em suma, o leitor da Bíblia logo descobre que há algo que ele é e algo radicalmente diferente no que ele deve se tornar. Há um abismo aparentemente intransponível entre um momento e outro. A distância é grande demais! Muitos desanimam e deixam pra lá, se conformando com alguns ajustezinhos exteriores (estilo de vida, vestuário, etc). Mas há alguns outros que querem realmente saber como sair do momento A para o momento B, aquele no qual ele se torna o que Deus sonhou para ele.

Bem, a idéia tradicionalmente pregada por aí a respeito do programa “como se tornar um cidadão do reino de Deus” envolve, basicamente, começar a freqüentar uma igreja, aonde, com alguma sorte, ele vai ser encorajado a ler alguns versos da Bíblia por dia, a orar antes das refeições e/ou antes de dormir e a prestar atenção no que um líder espiritual vai falar durante trinta ou quarenta minutos uma vez por semana. Isso, mais a participação em alguns sacramentos (que variam de igreja para igreja), seria o programa completo.

Seria esse o caminho? Bem, voltemos a nossa condição de leitores da Bíblia e aí vamos ser forçados a identificar nas biografias de praticamente todos os grandes homens ali mencionados um período em que o contato com Deus foi intenso – e não de apenas uns curtos momentos diários. Moisés passou 40 anos no deserto, Paulo passou 3 anos na Arábia, Jonas passou 3 dias no ventre de um peixe, José teve seu período decisivo enquanto era levado como escravo até o Egito. O próprio Jesus passou 40 dias no deserto e Seus discípulos, 50 dias reunidos “e perseveravam unânimes em oração” (Atos 1:14). Isso evidencia que o tempo varia de um para outro, mas o padrão é repetido vezes demais para ser negligenciado. Em suma, a conclusão é: precisamos de um período de intenso contato com Deus. Precisamos de um tempo de “deserto”.

Dallas Willard usa uma ilustração do fato que vale a pena repetir: postar-se abaixo de um chuveiro que deixa cair um pingo a cada 5 minutos, ainda que durante horas ou dias inteiros, não vai fazer você tomar banho.

Faça seus planos. Projete seu tempo de deserto. Um final de semana, um feriado. Um lugar sem televisão, sem muita gente, de preferência sem ninguém que você conhece. Tenha por companhia uma Bíblia, um hinário, talvez um bom livro. Mas o vital é não ter um programa cheio. Você precisa de tempo, muito tempo livre. E o mais importante: você precisa de sede e fome de conhecer a Deus.

Ou então, contente-se com as gotas esparsas que você tem permitido caírem sobre você.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Em retrospecto, uma palavra de gratidão.

Um dia a jornada vai chegar ao fim. Se alcançarmos a vitória poderemos olhar para trás e ver que a batalha foi travada e ganha pelo nosso amigo Jesus. Veremos quantas vezes caímos distraídos, cansados ou enganados. Veremos sua serena e constante paciência tomando-nos pela mão, atando as feridas e oferecendo-nos encorajamento. Veremos como vencemos pequenas lutas diárias apenas invocando o Seu poderoso Nome. Veremos quantas vezes legiões de anjos ofereceram um escudo impenetrável contra o ódio do inimigo e suas tentativas assassinas contra a nossa vida. Veremos como titubeamos, mas prosseguimos sendo relembrados a manter nossos olhos concentrados em nosso amado salvador. Veremos com que cuidado e carinho ele nos levou nos braços enquanto atravessamos delirantes de dor, tristeza, revolta e medo o monstruoso vale da morte. Veremos como ele se alegrou, cantou, sorriu e dançou conosco quando celebramos os nossos sucessos. O nosso coração não vai se conter de gratidão! A eternidade será curta demais para expressarmos a genuína e profunda gratidão pelo nosso amorável amigo, salvador e redentor. Nossas palavras serão tacanhas. Nossas tentativas serão vãns para dizer o quanto amamos a Jesus e o quanto somos agradecidos a Ele por nossa vitória. Mas ele sabe tudo. Ele sabe até que não temos palavras! O nosso cântico e o nosso olhar vai traduzir tudo! O abraço apertado de boas vindas nos fará esquecer o passado, e nos fará lembrar do futuro brilhante que teremos pela frente.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Sua opinião sobre a proposição num. 8

As eleições na Califórnia neste ano incluíram não só os candidatos a presidência, mas também uma controvertida proposição número 8, ondes os Californianos votaram numa emenda constitucional no estado para incluir a declaração de que "somente o casamento entre um homem e uma mulher é válido ou reconhecido na Califórnia." A passagem da emenda invalidou os até então válidos casamentos de casais homosexuais na Califórnia.

Um grupo de adventistas auto-denominados Adventists Against Proposition 8 se posicionou contra a proposição 8, e ativamente procuraram persuadir irmãs e irmãos da mesma fé (e outras fés também) a votarem contra. O movimento foi uma reação ao apoio público do Seventh-day Adventist Church State Council, que é o departamento de liberdade religiosa da União do Pacífico, em favor da proposição 8.

Pergunto: qual é a sua opinião sobre esta proposição, e sobre o ativismo dos crentes adventistas californianos?


Quem tiver interesse em ler a cronologia do ativismo estará mais informado para publicar sua opinião. ("disclaimer": o autor da cronologia tomou partido em um dos lados do ativismo)

Antes que novembro acabe...

... E com ele o mundo, que desde o meu último post, de 13 maio, já mudou bastante, deixem-me dizer algumas palavras.

Novembro não acabou ainda, mas o mundo como existia em maio sim. De lá para cá o barril do petróleo, e consigo o preço da gasolina no Estados Unidos, foi simultaneamente na extratosfera e no abismo. A economia, e seus índices, tiveram uma das mais dramáticas e espetaculares quedas já testemunhadas. Não que ninguém tivesse previsto o rompimento da bolha, mas que ninguém de fato previu a escala global do problema e a incapacidade dos especialistas em concordar sobre uma solução, que dirá engendrar uma solução. A mais longa e mais cara campanha eleitoral já testemunhada no EUA chegou ao fim, com incríveis incidentes e contornos, e um final inegavelmente histórico.

Com mudanças tão dramáticas e imprevisíveis acontecendo em espaço de tempo tão curto, como podemos sequer manter a sanidade e o senso de continuidade? Talvez nossos sentidos já estejam entorpecidos pela velocidade natural do mundo pós-moderno saturado de blackberries, instant messengers, celulares, comunicação global, internet, etc, que nem nos admiramos mais do passo em que as mudanças ocorrem. Talvez nos falte mesmo tempo para refletir no meio do frenezi ou simplesmente uma referência a um mundo lento, evoluindo em eras geológicas. Que conversa então seria essa de insanidade ou preocupação com continuidade, poderia alguém perguntar.

Mas antes que novembro acabe, e chegue o mês das festas e o clima de fim de ano, de tempo de retrospectiva, de receber o ano novo com novas resoluções e planos, antes que novembro acabe, reflito nas palavras pertencentes ao inconsciente coletivo adventista: os últimos acontecimentos serão rápidos.

Seriam estes os últimos acontecimentos? Com certeza serão, antes das celebrações do primeiro advento no ano que em breve termina. Mas bem que poderíam ser últimos antes das celebrações do segundo advento em um mundo que em breve termina, não acham?

domingo, 2 de novembro de 2008

Marketing

A máxima refrescância. Prazer em dobro. Surpreenda os seus sentidos. Experimenta! Uma aventura de tirar o fôlego. Adrenalina total. Você merece. Sofisticação ao seu alcance. Para poucos. Você merece. Você merece. Você precisa.

As mensagens que nos embalam (no sentido de embalagem mesmo) dizem que precisamos experimentar sensações-limites, devemos viver intensamente, devemos ter êxtases sensoriais cada vez maiores, sob pena de não estarmos "vivendo". O que ontem nos surpreendeu, hoje é corriqueiro, precisamos de uma dose maior.

É estranho que fiquemos assustados quando os adolescentes submetidos a esse discurso desde bebês se lancem nas drogas. Eles "precisam" viver, "precisam" sentir emoções fortes, "precisam" tirar os pés do mundo ordinário! Caso contrário, terão apenas existido, e a vida é pra ser vivida...

Mas não "precisamos" apenas experimentar, sentir, viver; "precisamos" ostentar. Um carro não serve mais apenas para nos deslocar por aí. O comercial mostra o sujeito orgulhoso de sua nova aquisição deixando a garagem entreaberta ou cortando a cerca viva de sua casa para que quem passa por fora possa ver aonde ele chegou, possa ver que, a julgar pelo objeto de luxo que ele adquiriu, "ele chegou lá". Ele não é qualquer um, ele não é condicionado pelo mundo ordinário. Um celular faz tempo que não serve mais apenas para comunicação e uma televisão para assistir programas de péssima qualidade. Eles "precisam" ter o máximo de funções agregadas, porque são objetos de exposição e porque "precisamos" do máximo conforto, da máxima conveniência.

O mundo gira graças ao combustível desse monte de necessidades artificiais. É para consumir que nos esfalfamos, porque o consumo nos permite viver as sensações que nós acreditamos que precisamos viver para continuar existindo e porque ele nos permite alcançar aceitação em uma coletividade ou destaque dentro dela. E, se o consumo não
basta, nós nos consumimos a nós mesmos, e o caso das drogas citado aí acima é só um exemplo. Sexo, pornografia, poder, sucesso, manipulação, trabalho excessivo, são todas formas de auto-consumo, tentativa vã de entregar à vida algum sentido ou propósito.

Como se fosse antevendo esse estado de coisas que Paulo suplicou: "não vos conformeis a este mundo, mas transformai- vos pela renovação de vossa mente, para que experimenteis [isso sim vale a pena "experimentar" ] qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12:2). Não conformar-se, amigo, significa não consentir em entrar na mesma fôrma. Viver é muito mais do que dizem por aí.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Marketing

A máxima refrescância. Prazer em dobro. Surpreenda os seus sentidos. Experimenta! Uma aventura de tirar o fôlego. Adrenalina total. Você merece. Sofisticação ao seu alcance. Para poucos. Você merece. Você merece. Você precisa.

As mensagens que nos embalam (no sentido de embalagem mesmo) dizem que precisamos experimentar sensações-limites, devemos viver intensamente, devemos ter êxtases sensoriais cada vez maiores, sob pena de não estarmos "vivendo". O que ontem nos surpreendeu, hoje é corriqueiro, precisamos de uma dose maior.

É estranho que fiquemos assustados quando os adolescentes submetidos a esse discurso desde bebês se lancem nas drogas. Eles "precisam" viver, "precisam" sentir emoções fortes, "precisam" tirar os pés do mundo ordinário! Caso contrário, terão apenas existido, e a vida é pra ser vivida...

Mas não "precisamos" apenas experimentar, sentir, viver; "precisamos" ostentar. Um carro não serve mais apenas para nos deslocar por aí. O comercial mostra o sujeito orgulhoso de sua nova aquisição deixando a garagem entreaberta ou cortando a cerca viva de sua casa para que quem passa por fora possa ver aonde ele chegou, possa ver que, a julgar pelo objeto de luxo que ele adquiriu, "ele chegou lá". Ele não é
qualquer um, ele não é condicionado pelo mundo ordinário. Um celular faz tempo que não serve mais apenas para comunicação e uma televisão para assistir programas de péssima qualidade. Eles "precisam" ter o máximo de funções agregadas, porque são objetos de exposição e porque "precisamos" do máximo conforto, da máxima conveniência.

O mundo gira graças ao combustível desse monte de necessidades artificiais. É para consumir que nos esfalfamos, porque o consumo nos permite viver as sensações que nós acreditamos que precisamos viver para continuar existindo e porque ele nos permite alcançar aceitação em uma coletividade ou destaque dentro dela. E, se o consumo não
basta, nós nos consumimos a nós mesmos, e o caso das drogas citado aí acima é só um exemplo. Sexo, pornografia, poder, sucesso, manipulação, trabalho excessivo, são todas formas de auto-consumo, tentativa vã de entregar à vida algum sentido ou propósito.

Como se fosse antevendo esse estado de coisas que Paulo suplicou: "não vos conformeis a este mundo, mas transformai- vos pela renovação de vossa mente, para que experimenteis [isso sim vale a pena "experimentar" ] qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus" (Romanos 12:2). Não conformar-se, amigo, significa não consentir em entrar na mesma fôrma. Viver é muito mais do que dizem por aí.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

The XXX Church

Foi lendo uma Rolling Stone que descobri a existência da "Igreja Cristã Pornô". Também comecei a ler com os cabelos em pé. Que raio de coisa é essa?

Veja lá. Aparentemente é uma igreja cristã tradicional, só que seus membros usam camisetas com os dizeres "Jesus loves porn stars", de visual modernoso. A iniciativa visa manter um diálogo com profissionais do sexo e pessoas com problemas nessa área, sem julgamentos nem condenações, só isso. Só o que Jesus faria.

Já existe uma espécie de "filial brasileira". a Sexxxchurch visita a rua Augusta na madrugada de sexta pra sábado, faz mobilizações na Praça da Sé pela conscientização contra a pornografia infantil, mantém grupos de apoio a viciados em pornografia e coisas do gênero.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Isso era um comentário mas ficou muito grande... rs

Gente, vocês não imaginam o quanto essas discussões têm me ajudado!

Não estou conseguindo elaborar tão bem o que penso ainda, porque as coisas ainda estão bem confusas na minha cabeça, mas ao mesmo tempo eu sinto uma convicção muito grande que estamos caminhando em direção à essência - e que na verdade essa caminhada vai perdurar por toda a vida...

1 - Sobre vocês e o blog
Vocês e mais alguns poucos amigos têm sido a minha melhor referência de igreja atualmente, e isso é maravilhoso, considerando as distâncias e os diferentes "graus de amizade" que temos! Sim, isso é igreja!

2 - Os efeitos
Refletir dessa forma sobre o que creio, por que creio, a existência de Deus, o papel da igreja e as formas de religião, no mínimo me faz viver toda e qualquer experiência religiosa, individual ou coletiva - seja na igreja, no meu quarto, num restaurante com amigos ou na casa deles, no trabalho ou num parque com desconhecidos - de forma mais honesta, pura, sincera e verdadeira. Estou me despindo cada vez mais dos preconceitos (e são tantooooossss!!), me colocando mais ao lado das pessoas, respeitando suas diferentes experiências, falando das minhas próprias experiências muito mais despretensiosamente.

Porque tenho a impressão de que a única coisa que inegavelmente temos em comum é a busca. A forma como buscamos e como lidamos com o que encontramos é totalmente individual e intransferível! Porque depende de como cada um pensa, percebe e interpreta. De quanto cada um se entrega à experiência. De quanto cada um é honesto consigo mesmo (o que me parece um pré-requisito para ser honesto com as outras pessoas e com Deus).

Evangelizar pra mim é um verbo que mudou de significado! Não consigo mais acreditar em evangelismo como me foi ensinado. Ninguém evangeliza ninguém! A gente busca a Deus, aprende a viver como Jesus e a conviver com as pessoas tendo a postura que Ele tinha e só! Qualquer coisa que acontece com quem estiver por perto de nós será uma experiência da pessoa com Deus! A gente só se torna alguém ou um grupo de pessoas com quem é gostoso partilhar sem ser julgado e sem julgar, todos conscientes de que ninguém tem todas as respostas - e dessa forma aptos a sermos usados por Deus como bênçãos a outros!

3 - O que me incomoda
Recentemente, andei me incomodando um bocado com o fato de que as minhas maiores convicções são empíricas. Porque eu percebo a atuação de Deus na minha vida, claramente. Eu percebo Ele se preocupando com as minhas dúvidas, respondendo pontualmente cada uma delas (ainda que seja me dando mais informação para processar e me deixando mais confusa, mas não fugindo do assunto). Eu percebo que Ele atua na minha mente e no meu coração. Me vejo agindo em algumas situações, naturalmente, de forma totalmente diferente do que tem sido natural para mim desde que me conheço por gente. Estou sendo transformada na essência. Sei que não é minha própria capacidade, é Ele. Percebo Sua atuação na comunidade apesar de todos (e são muitos) os problemas que enfrentamos como organização. Como pode isso acontecer? Pessoas se encontrando, sendo transformadas. É totalmente empírico, mas é incontestável!

>> E por falar em comunidade, igreja, que é o grande tema do qual estamos tratando aqui, estou tendendo ao que o Osmar levantou: paradoxalmente, a questão é muito mais individual do que coletiva. A idéia é ser um conjunto de indivíduos em busca e constante transformação - e por isso mesmo capazes de ouvir sem julgamento, dispostos a compreenderem e suprirem as necessidades mútuas.

Mas voltando ao tema, comecei a perceber que as experiências de todos, até dos melhores argumentadores entre meus amigos, no fim das contas também são empíricas. Algumas das suas "razões" para não crer, é porque estão "testando" algo, testando não crer. E não negam que percebem a existência de algo que nos transcende e buscam respostas (voltando à estaca zero).

4 - O que atrapalha
Essa semana, estava conversando com uma amiga sobre como as pessoas criam sua própria religião, seu conjunto de crenças e tentam vender e até impor a outros. Porque adquirimos um pouquinho de conhecimento e entendemos que precisamos disseminá-lo, nos tornamos pessoas desrespeitosas e inconvenientes, sob a bandeira de "bem-intencionadas". E quando nos é conveniente, nos contradizemos fazendo concessões. Racionalizamos "desculpas esfarrapadas" com "embasamento bíblico" e ficamos "equilibrando pratinhos" para justificar-nos. Com isso, tornamo-nos completamente incoerentes e péssimos representantes de Cristo! Imagino Jesus se contorcendo ao ver pessoas tentando pregar sobre Ele mas agindo dessa forma completamente oposta ao Seu caráter!

5 - Aqui vai realmente o comentário
E aqui chego à questão que o Osmar comentou sobre suprir as necessidades das pessoas. O que falta é interessar-nos mesmo por fazer a obra que Jesus fazia, ser como Ele. "Ir" pode ser simplesmente ficar quando alguém é abandonado por todos por causa de suas idéias e questionamentos. Pode ser abrir mão de algumas horas de sono para ouvir alguém que precisa desabafar. Pode ser dividir comida, casa, oportunidade de trabalho. Pode ser apenas passar tempo ao lado de um parente doente, um idoso, uma criança sem lar. Pode ser perdoar e continuar tolerando aquela pessoa que te irrita sempre da mesma forma pela "trocentésima" vez, e continuar agindo com respeito e amor com ela... e fazer isso entendendo que é exatamente isso que todos precisamos - e é o que Deus faz conosco!