segunda-feira, 9 de março de 2015

Lei e disciplina IV

Anos atrás descobri o livro "The Divine Conspiracy" de Dallas Willard, um filósofo cristão que escreveu extensivamente sobre o conceito das disciplinas espirituais associada à transformação do caráter, o que muitos chamam de "formação espiritual". O conceito das disciplinas em si é simples, porém eficaz em fazer com que o processo da transformação do caráter seja uma realidade palpável na vida daquele que o põem em prática.

Como qualquer outro ramo da atividade humana, conhecer a Deus e tornar-se apto nos assuntos da natureza espiritual é uma questão de estudo e aprendizado. Suponha que alguem deseja tornar-se um pianista. Para este fim, existe um corpo de conhecimento testado e provado que quando seguido à risca pode habilitar qualquer pessoa a se tornar um pianista. Da mesma forma, suponha que alguém deseje tornar-se um 'santo'. Para este fim, também existe um corpo de conhecimento testado e provado que quando seguido à risca pode habilitar qualquer pessoa a tornar-se um santo, segundo o coração de Deus. Para a maioria das pessoas pouca dúvida existe sobre o que é necessário fazer para tornar-se um grande pianista, porém, os passos necessários para tornar-se um santo está coberto de incertezas e é motivo de constante debate. Além do mais, é relativamente fácil encontrar pessoas que tornaram-se grandes pianistas como resultado do estudo e prática, mas é raro encontrar um santo que possa explicar e exemplificar o processo de santificação. Naturalmente os melhores exemplos encontram-se na Bíblia, Paulo sendo, talvez, o mais proeminente. Uma leitura cuidadosa das suas cartas mostram claramente o caminho, mas, infelizmente, muitos têm apenas uma compreensão superficial dos seus ensinos.

Como é que alguém que deseja ser santo, torna-se um santo? Aqui é necessário definir o que é ser 'santo', o que pode levar a uma longa tangente. Para efeito prático, suponha que alguém que tendo tomado conhecimento da pessoa de Jesus, sua filosofia e estilo de vida, acha-se completamente persuadido a estudar com afinco seus ensinamentos, bem como colocar em prática seus ensinos de maneira sistemática e metódica com o objetivo de alcançar os resultados demonstrados na vida e ensinos de Jesus. Este indivíduo deve ser considerado um "aprendiz da santidade", ou, para usar o termo bíblico, discípulo. Com experiência e prática o aprendiz passará a ser reconhecido como um santo simplesmente por demonstrar na sua vida a mesma filosofia e resultados observados na vida de Jesus.

Vamos ver como funciona com alguém que deseja se tornar um exímio pianista. O indivíduo descobre o talento extraordinário de Krystian Zimerman e passa a estudar piano com o grande mestre. Reproduzir a beleza e a qualidade da música de Zimerman torna-se o alvo, e cada conceito, ensino e prática é seguida nos mínimos detalhes. No princípio trata-se não de um pianista, mas de um aprendiz. Com o tempo, a virtuosidade do estudante será notada e ele passará a ser considerado um pianista, ou talvez até um exímio pianista, mesmo que ele próprio ache que ainda está longe de ser tão virtuoso quanto o mestre. A analogia com a santidade é evidente.

No próximo post vou apresentar o que penso estar incorreto com a forma como a santidade é vista e comumente praticada nos círculos religiosos. Para não dar muito suspense, já posso antecipar que se trata de confundir o exercício com a performance.





sexta-feira, 6 de março de 2015

Lei e disciplina III

Anos atrás morávamos perto de Lancaster, Pensilvânia, um reduto de pessoas Amish. Eles não usam energia elétrica em casa ou na fazenda, andam de carroças e vestem-se como cidadãos do século dezenove. Vivemos agora em uma região dos Estados Unidos onde existe uma grande concentração de Menonitas. Não é difícil reconhecê-los andando pela cidade. As famílias estão sempre juntas e as mulheres estão sempre usando um lenço rendado na cabeça, cabelos em coque e vestidos compridos de modelo antiquados. Já tivemos vizinhos Mórmons. Semelhante aos Adventistas, eles não tomam bebidas com cafeína, nem bebida alcoólica, não vão em baladas, e pregam uma vida casta até o casamento. De onde vem estas práticas, e o que elas representam? Seriam elas doutrinas, disciplinas ou dogmas? A minha perspectiva é de que a vasta maioria das práticas distintivas que compõe as formas definidas no post anterior, são disciplinas que se incorporaram à doutrina e com o tempo tornaram-se dogma. Eis o processo no caso do adventismo.

Ao longo da formação da igreja, inúmeras práticas introduzidas pelos fundadores tornaram-se a essência do que é ser um adventista. Podemos listar entre elas a adoção de um dieta vegetariana, a abstinência ao consumo de bebida alcoólica, café, e chá preto, a abstinência ao uso de jóias, à visitas ao teatro, cassinos e salões de dança, etc. Tais práticas foram introduzidas com nobres propósitos e tiveram  ampla adoção pelos novos crentes. Estes entusiasticamente as incorporaram aos ensinos da igreja, ou doutrina. Com o passar do tempo as práticas ganharam um status de lei num processo temporal de "canonização." Aqui reside o problema a qual eu me referi anteriormente. Disciplinas jamais deveriam tornar-se leis! Quando isso acontece, elas não somente perdem a eficácia, como também dão uma falsa segurança espiritual. Para piorar a situação, muitos casos, senão todos, a canonização da prática é acompanhada de amnésia quanto à motivação original.

Como é que sabemos quando uma prática virou dogma, ou a disciplina virou lei? Pela maneira como é julgado o membro não conformista com a prática específica, vide o exemplo do cafezinho no post anterior.

Quando uso aqui a palavra disciplina tenho uma definição muito específica em mente. Trata-se das disciplinas espirituais que quando aplicadas devidamente cooperam com a transformação do caráter. Como é possível que nem todos estejam familiarizados com o conceito das disciplinas, no próximo post pretendo abordá-lo brevemente.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Lei e disciplina II

Na postagem anterior introduzi a questão das formas, ou seja, como discutir e aplicar a prática da vida cristã na vida de um cristão. No GEA evitávamos o assunto por princípio. Nos fóruns da igreja normalmente vemos o oposto. Qual seria o melhor caminho?

Em tempos recentes tenho estado cada vez mais convencido de que estamos parcialmente, se não completamente confusos quanto à teoria e a prática do processo de redenção. Em certo sentido a confusão está relacionada ao antigo dilema entre fé e obras, agora exacerbado pela tensão entre a mentalidade moderna e pós-moderna. O julgamento do viver correto é o ponto central da confusão, ou a distinção entre lei e disciplina, esta última pouco compreendida pelos cristãos em geral e menos ainda pelos adventistas. A estorinha a seguir oferece um ponto de partida.
Sábado à tarde, almoço encerrado, sobremesa servida na casa do ancião da igreja que você está visitando com outros amigos. Todos sentam-se na sala para um bate papo descontraído e a esposa do anfitrião então pergunta: "alguém aceita um cafezinho?"
Independente de onde você se encontra no espectro de tendências, é muito provável que ficará intrigado com a situação. Seria o ancião da igreja casado com uma senhora não adventista? Será que se trata de um irmão progressista? Será que o café é descafeinado? Ou será que o anfitrião nunca leu o Ciência do Bom Viver ou o Manual da Igreja?

Esta ilustração pode ser adaptada para muitos outros temas relacionados com o estilo de vida adventista, e tem a clássica formulação para gerar um infindável debate sobre se devemos ou não tomar café, ou em círculos mais dogmáticos, se é pecado ou não ingerir estimulantes. Como disse, no GEA não permitíamos as tais discussões das formas, portanto peço cautela aos leitores ao se pronunciarem nos comentários. Meu objetivo é analizar o caso de um ângulo diferente. Mas isso vai ficar para o próximo post.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

The Record Keeper - Série Estilo "Steampunk" sobre o Grande Conflito

Vocês já ouviram falar e/ou assistiram o Record Keeper? É uma série que foi inicialmente concebida e financiada pela Conferência Geral e no fim "abandonada" semanas antes do lançamento planejado porque os líderes teológicos e administrativos da igreja acharam que era muito problemático e muito "negativo" e "dark." Aqui está a notícia oficial em português no site da igreja.

Para aqueles que não conhecem a série, resolvi escrever um outro post no qual estou inserindo  o clipe do YouTube para o primeiros episódio (os outros podem ser facilmente encontrados) e também o link para o site que disponibilizou os episódios com legendas  em português (mais abaixo).

Nós já assistimos várias vezes e gostamos muito. A série foi concebida e filmada no estilo retro-futurista "Steampunk" (nossa, eu não tinha ideia que De volta pro futuro 3 é meio que considerado "steam" -- por causa do uso do trem, e quase decerto steampunk!). A narração concentra-se em dois anjos, um caído, outro que ficou ao lado de Deus e na "Guardadora dos Registros" que trabalha no céu registrando narrações objetivas de episódios chaves deste grande conflito. É fascinante!

O objetivo da conferência geral era utilizar cada episódio série como um dos elementos de uma série evangelística, acompanhados de um sermão, estudos bíblicos e coisa e tal. E inclusive algumas igrejas na região de Washington DC participaram de um plano piloto usando a série. Mas daí os líderes da igreja acharam que era polêmico demais e deixaram de lado como está explicado neste link (o lançamento estava previsto online para fevereiro do ano passado [2014]). A análise completa dos teólogos da igreja pode ser encontrada aqui (em inglês, em PDF).

No fim, a série acabou vazando e sendo partilhada no YouTube em julho do ano passado, o que foi "menos mal", pois pelo menos ela está disponível! O primeiro episódio, o piloto, foi postado pelo próprio diretor, mas os outros foram também disponibilizados por outras pessoas. Foi criado também um site para divulgar o Record Keeper com legendas em português que aparentemente podem ser baixadas. Eu não tentei portanto não sei se funciona. Clip do primeiro episódio:

 Assistam tudo se puderem (vale muito à pena!!) e depois nos falem o que acharam!

Se fosse hoje...

"Jesus foi por todo o nordeste, ensinando nas escolas, anunciando as boas notícias relacionadas com o Governo divino, e curando todas as enfermidades e doenças entre o povo. Notícias sobre Ele se espalharam por todos os países vizinhos, e o povo lhe trouxe todos que estavam padecendo vários males: pessoas com câncer, mal de parkinson, alzheimers, aids, esquizofrenia, paralisia, derrame, e doenças do coração; e ele os curou a todos.  Grandes multidões o seguiam vindas do Norte, Nordeste, Sul e Sudeste."

Mateus

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Os Adventistas são estranhos

Esse post é longo, desculpem-me pela prolixidade! É isso que dá quando se fica anos sem escrever neste blog!

Alguns anos atrás eu de repente “me toquei” que nós adventistas somos muito estranhos como uma denominação cristã e que nem percebemos isso. Aliás, em países muçulmanos, como o Egito, onde meu cunhado Kleyton agora trabalha como missionário, a igreja adventista passou por apuros no ano passado quando os outros cristãos quase conseguiram passar uma lei que excluía os adventistas do grupo de igrejas cristãs. Felizmente a lei não foi aprovada (ainda) e a igreja está lutando para continuar sendo reconhecida pelo governo. Depois eu volto a falar da questão dos países muçulmanos, mas ela está relacionada com o que eu vou explicar abaixo.

Quero abordar este assunto porque ele está me incomodando há anos e também porque  eu não tenho como discutir isso com muitas pessoas, só com uma amiga nossa, a Jenny, que é a nossa única amiga verdadeiramente “GEAna” aqui onde moramos. E vai ser ótimo ter a opinião (super informada!) de vocês. Além de uma perspectiva diferente de quem está no Brasil.

Na minha opinião, uma das razões pelas quais nós acabamos não reconhecendo/descobrindo que somos estranhos é que interagimos muito pouco com pessoas de outras denominaçõea cristãs (especialmente outras igrejas protestantes) e vivemos numa “bolha” isolada. Além disso, aí no Brasil há certas campanhas evangelísticas que exploram facetas de um país católico e que acabam mascarando um pouco a nossa “estranheza”, mas já volto a falar mais sobre isso.

O dia em que fiz esta descoberta de maneira mais intensa foi uma sexta-feira à noite em que estávamos ensaiando o nosso pequeno coral na igreja de Fairview Village na região da Filadélfia (Pensilvânia). Depois de 4 tumultuados anos frequentando uma pequena igreja brasileira, nós finalmente tínhamos decidido mudar para a igreja americana que ficava há 10 minutos de casa.

A igreja também era pequena (em número de membros), mas havia algumas novas famílias vindo, incluindo uma senhora boliviana que tinha recentemente se casado com um senhor americano que tinha sido pastor luterano, nosso amigo Bob. O Bob tinha muitos talentos musicais (tinha sido inclusive organista além de pastor) e então o chamamos para juntar-se ao nosso pequeno coral. Planejamos com o pastor um programa de páscoa para o sábado à tarde que antecedia o domingo de páscoa e nosso coralzinho ia cantar duas músicas, então, obviamente, marcamos um ensaio pra sexta à noite.

(Vou abrir um parênteses aqui pra contar que por muitos anos eu li o blog e me tornei muito amiga de uma [agora ex] blogueira que fez um PhD em teologia e que é episcopal/anglicana. Minha amiga Annie sempre escrevia muito sobre a sua igreja e sobre as diferentes celebrações que eles tinham, especialmente como os filhos pequenos dela se envolviam na celebração da páscoa: lava-pés na igreja na quinta à noite, como na sexta eles removiam os enfeites da igreja e a cruz (eu acho) e sábado à noite ficavam todos de vigília, tristes na igreja e a tinham uma vibrante celebração da ressurreição de Cristo ao nascer do sol de domingo, tudo muito interessante. Ela também sempre falava da quaresma e de vários outros eventos no calendário eclesiástico cristão – que no Brasil achamos que é apenas católico, mas que na verdade também é usado e respeitado por muitos protestantes. Fim do parênteses.)

Naquela sexta à noite, quando acabou o ensaio do coral, eu olhei pro meu amigo Bob e de repente tive um “estalo.” Eu falei que devia ser muito estranho pra ele estar ali naquela noite, Sexta-feira da Paixão, na qual ele provavelmente estaria na igreja, num culto, pois é uma data tão importante para as outras denominações cristãs mas que nós adventistas não “celebramos.” Depois disso tive algumas conversas com ele e, no mesmo ano, tivemos um judeu messiânico que veio à nossa igreja para celebrarmos um Seder (Páscoa Judaica) com simbolismo cristão que foi fascinante!

Eu entendo que o calendário cristão/católico tem muitas celebrações (senão quase todas) baseadas em festivais pagãos e esta é uma forte razão para nossa igreja não segui-lo, mas não é estranho que não vemos mal nenhum em celebrar o natal, mas não se celebra a páscoa? (Só porque é num domingo? só porque a data é relacionada com o paganistmo? O natal também é!) No Brasil às vezes se esquece que a igreja adventista oficialmente não celebra a páscoa porque a igreja adventista, super oportunista em termos de evangelismo (o que não é uma coisa ruim, só estou sendo chata), estabeleceu os “Calvários” – reuniões durante a Semana Santa que aproveitam a “onda” da semana mais celebrada da religião cristã e católica.

Aqui nos Estados Unidos obviamente não há isso, mesmo porque as igrejas protestantes principais (batista, metodista, etc), celebram mesmo só o domingo de páscoa, não tem nada na quinta-feira, sexta e sábado (são só católicos, episcopais e os luteranos que tem cultos/cerimônias nestes dias, pra celebrar a última ceia, a morte de cristo e a ressurreição ao nascer do sol de domingo). Vocês sabiam que existe lava-pés nestas denominações, mas só uma vez por ano na quinta feira que antecede a Sexta-feira Santa? (Nós, por outro lado, temos lava-pés nas "Santas-Ceias" que ocorrem em épocas aleatórias durante o ano, sendo que muitas outras denominações cristãs e os católicos, fazem a "comunhão" com o pão e vinho/suco em TODOS os cultos, qual é a razão das datas aleatórias da Santa Ceia?). 

À partir desta experiência com meu amigo Bob, eu comecei prestar mais atenção e a perceber a “estranheza” do adventismo em outros aspectos também. Guardamos o sábado, que foi estabelecido na criação, mas todas as outras festas judaicas foram “abolidas” porque já tiveram seu cumprimento em Jesus, é isso? Eu imagino que a posição oficial da igreja é que se alguém quiser celebrar as festas judaicas (páscoa judaica, dia da expiação, tabernáculos – esqueci os nomes judaicos) não há problema, mas que esta prática não tem nada a ver com a salvação. (como? Se as festas apontavam para Cristo sim, mas em vários lugares da Bíblia fala-se que deveriam ser celebradas em perpetuidade-- OK, pelo povo de Israel).

Tem uma outra coisa que me irrita ainda mais profundamente (e que é um ponto de contenção importante nos países muçulmanos). Como é que dizemos seguir os conselhos alimentares de Levíticos 11, mas não advogamos seguir uma dieta Kosher ou não comemos somente carne abatida da maneira própria (Kosher ou Hallal – deixando o sangue escorrer como as escrituras falam para fazer)? Aqui nos Estados Unidos a maioria dos Adventistas são ovo-lacto vegetarianos, mas ao redor do mundo não, e se come qualquer carne "limpa" de qualquer proveniência (exceto porco e frutos do mar). E tem outro problema! Os judeus que seguem a dieta Kosher, NUNCA misturam queijo com carne, já que a Bíblia fala para não comer o filhote da vaca com o leite da mãe. Inclusive eu conheci alguns judeus israelenses-americanos (não praticantes da religião, mas sim dos costumes) que eram ovo-lacto vegetarianos porque é muito mais fácil seguir a dieta Kosher sem comer carne. Eu não estou querendo ser uma chata legalista, só estou querendo questionar as nossas práticas que parecem ser bem "seletivas" -- seguimos a Bíblia literalmente em alguns lugares, e em outros não. (e eu NÃO SEI qual seria a solução para estes problemas, obviamente).

Não estou querendo argumentar que a alimentação "estilo Kosher" seria um ponto super-sério “de salvação,” mas  como explicar não comer carne de porco e frutos do mar e não seguir outras partes do capítulo 11 de Levíticus (comer carne abatida de qualquer jeito, com o sangue, e carne de vaca com queijo?).

Claro que mesmo o cumprimento parcial das leis alimentares é BOM, e é precisamente o que causa problemas nos países islâmicos. Uma das razões para os adventistas serem SUPER estranhos em países muçulmanos e às vezes NÃO considerados cristãos é que adventistas não comem porco e carnes imundas! Para os muçulmanos num país como o Egito, todos os cristãos adoram os santos e imagens (algo que é contrário aos princípios dos muçulmanos -- e que a igreja protestante na verdade procurou restaurar, retirando o culto às imagens) e são "sujos" -- isto é, comem carnes imundas. Então eles ficam super confusos com os adventistas, obviamente. Além de que nós também guardamos os sábado, então somos meio judeus (os "inimigos" do Islam), o que complica ainda mais as coisas.

Bom, onde é que eu estou querendo chegar com tudo isso? Estou apenas querendo saber a sincera opinião de vocês sobre estes assuntos, pode ser?

Um último comentário é que uma das coisas que me incomoda no fato de nós termos deixado de lado todos estes "rituais" do cristianismo/catolicismo é que rituais são coisas naturais ao ser humano e fazem com que crenças abstratas tornem-se mais significativas, especialmente para crianças -- daí a beleza da Santa Ceia como simbolismo, por exemplo. Acho que pode haver muita beleza simbólica e profunda nos rituais tradicionais do cristianismo e talvez isso seja algo que nos falta.



OK, terminei. Será que alguém conseguiu chegar até o fim? :-)

Lei e disciplina I

Quando formulamos os princípios do GEA USP segunda geração, ficou decidido entre outras coisas que nunca iríamos colocar na agenda tópicos para discussão tais quais: qual é o correto comprimento da saia da irmã, ou é certo ou errado ir ao cinema, ou qual é o tipo de música apropriada para cristãos ouvirem, ou jovens adventistas podem ou não usar jóias, jogar baralho, ler romances, comer carne, etc, ... enfim, todos estes assuntos que envolvem formas, geram debates infindáveis e dificilmente levam a algum lugar.

A igreja todavia não é o GEA, e a tendência é promover tais discussões, afinal jovens precisam de direção e não se pode esquecer o que é distintamente ser um adventista. É possível também que estejamos entrando numa fase na qual qualquer discussão dessa natureza é taxada como "salvação pelas obras", e é consequentemente um tabu.

A pergunta é como devemos lidar com esse assunto das formas na experiência religiosa? Se o assunto nunca for abordado será que alguém vai jamais saber o que é certo ou errado? Por outro lado, como evitar a guerra de facções e "achismos"?

Em futuras postagens gostaria de falar um pouco desse assunto em um contexto que raramente é usado dentro da igreja.


Tentando "ressucitar" o blog & Links

Eu (Lilian) e o Klebert tínhamos perdido o acesso às contas de email que criamos para postar neste blog, então estou mexendo um pouco no blog e testando deletar e acrescentar autores para podemos escrever novamente, OK?

O único "link" que tínhamos no blog é para um site que não existe mais (Progressive Adventist), então eu acrescentei um link pra um website HILÁRIO que foi criado no ano passado, Barely Adventist, que contém sátiras hilárias (todas fictícias, obviamente) a variados assuntos relacionados à vida adventista (aqui nos EUA).

Também acrescentei dois sites bem "opostos", o super-tradicional, baseando o neurótico às vezes, Advindicate e a instituição antiga e progressiva, a revista Spectrum.

Por favor, enviem mais sugestões de links! Eu gosto muito do site do Joêzer, mas, desculpem, não sou muito fã dos outros jornalistas adventistas que tem blogs. Na verdade só os li algumas vezes, mas não achei as discussões muito balanceadas.

Bom, vou parando por aqui, mas estou escrevendo um ou mais posts hoje. Está nevando forte aqui em New Market, VA, portanto não podemos ir à igreja e estamos tentando reativar o blog! Obrigada ao Gabriel e o Marco que nunca desistiram dele e continuaram postando esporádicamente.

(abraço, Lilian)

sábado, 28 de junho de 2014

Flores a Deus

Sabe, quando ouço conversas sobre relacionamento com Deus, doutrinas bíblicas, ou sobre a vontade de Deus para nós, frequentemente tenho a impressão de que buscamos nos convencer de que se fizermos a coisa certa, se crermos na doutrina correta, se tivermos o positivismo necessário e suficiente (e erroneamente achamos que isso é fé), conseguiremos de algum modo convencer a Deus de que somos merecedores do Céu,  ou que conseguiremos manipular a vontade divina a nosso favor.
Agimos como se, obedecendo o que cremos ou lemos ser a vontade dEle, seremos agraciados com bênçãos ou seremos mais felizes simplesmente porque conseguimos agradar O todo poderoso que nos recompensará devidamente.
E se, de algum modo, conseguirmos convencer a outros de que a nossa posição (ou religião) é a que Deus quer que eles abracem, aí sim ganharemos estrelinhas na coroa, e a nossa recompensa será muito maior do que a do nosso colega que ainda não conseguiu tal feito.
Geralmente estamos, de algum modo, buscando dizer alguma coisa que nos convença de que nos é mais mais vantajoso seguirmos o que ouvimos do pastor aos cultos nos fins de semana pela manhã, do que viver uma vida desvinculada de Deus, por mais divertida que ela possa parecer, afinal de contas o prêmio no final é muito melhor.
Impressionante o individualismo de nossa cultura ocidental, tão profundamente interiorizado em nossos pensamentos que não nos é possível conceber um relacionamento do qual não possamos tirar vantagens, ainda que este seja com Deus. E ainda mais é o fato de chamarmo-nos de cristãos, e de buscarmos obedecer a Deus, para legitimarmos nossa vontade de satisfazer nosso próprio interesse.
Lembro-me de uma tarde há vários anos atrás, quando fui buscar ao aeroporto de Cumbica minha irmã que vinha nos visitar. Lá, ela nos apresentou um jovem casal de namorados que vinha pela primeira vez ao Brasil passar umas férias e que precisava de uma carona à Rodoviária do Tietê para pegar um ônibus e seguir sua viagem. Eu estava com minha esposa e meus filhos, ainda pequenos (entre 4 e 6 anos provavelmente) e eles nos viram chegando em família para receber carinhosamente a tia tão esperada pelos pequenos.
No caminho ao estacionamento, carregando os carrinhos com as bagagens, o rapaz e eu avançamos com as malas pesadas, enquanto as moças com as crianças vinham a passos mais tranquilos. E durante esse trajeto, por alguma razão, percebi que o rapaz assim que pode, me dirigiu uma pergunta um tanto pessoal para um desconhecido:
Desculpa te perguntar, mas vale à pena se casar?
Confesso que fiquei meio atônito a princípio, pensando o que levou o rapaz a fazer tal questionamento a um total estranho, eu. A moça que o acompanhava era linda, de longos cabelos claros e de feições finas, muito educada e simpática. A experiência com sua convivência (a qual eu desconhecia completamente) não parecia ser motivação suficiente ao rapaz para assumir um compromisso para a vida toda com ela, e pelo tom da pergunta, nem com ela nem com ninguém.
Não me lembro exatamente da resposta que dei a ele, mas disse algo sobre a experiência da vida a dois, que não é um mar de rosas mas que se seus sentimentos por ela fossem maiores do que as dificuldades que pudessem surgir, eles seriam felizes... e que eu era feliz.
Hoje, relebrando, me envergonho em certo sentido da minha resposta, pois ela ainda remetia à visão individualista da pergunta dele: sim, você pode ser feliz, casando-se você ainda pode satisfazer os seus próprios interesses.

Em vídeo de Rob Bell, encontrei uma alegoria que usei recentemente ao falar a congregações sobre a lei de Deus. Por favor, permitam-me compartilhá-la.
Imaginem um casal, cujo marido comprou lindas flores a esposa, de rosas das grandes, arranjadas num bouquet de fazer inveja, e ela surpresa e radiante pelo agrado recebido, pergunta ao amado:
-Nossa, querido! O que te levou a comprar essas flores tão lindas pra mim?
-Ora, eu sou o seu marido. Se pressupõe que eu deva fazer essas coisas...
Ou então, ele poderia ter dito:
-No caminho para cá, eu encontrei uma promoção e estavam tão baratinhas...
Mulheres, antes que vocês me crucifiquem, vou tentar novamente:
-Bem, é que eu achei que você estava precisando delas...
Calma...calma... eu sei que tem algo de muito errado nestas respostas. Tudo o que a esposa esperava do seu marido era o seu coração, numa demonstração de seu amor por ela. Mas estas respostas não indicaram isso. E as flores para ela, por mais lindas que fossem, perderam seu encanto e seu valor... já não serviam para mais nada.

Não fazemos muitas vezes o mesmo com Deus? Quantas vezes tentamos convencer a outros e a nós mesmos de que, ao levarmos "flores" a Deus, estamos fazendo o que supostamente devemos fazer? Afinal somos cristãos, não somos? Assim Ele ficará satisfeito e ouvirá nossas petições, no ledo engano de uma visão distorcida de relacionamento...
Então, Ele recebe nossas "obediências" vazias que, sem valor, já não alegram o Seu coração. E o que Deus esperava de nós... o nosso coração... bem, isso é outra coisa...
E se você pensou algo do tipo: "Mas ainda assim vale à pena, tem vantagem pra você! Você será mais feliz fazendo assim!", estes argumentos continuam sendo tão individualistas (para não dizer egoístas) que duvido que consigamos acreditar sinceramente neles como legítimos para estabelecer um relacionamento com Deus.
Tenho a impressão de que muito pouco aprendemos até aqui sobre amar a Deus, e não é à toa que o mandamento diz "de todo o teu coração,  de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento" (Mar 12:30), bem... talvez eu deva falar somente de mim mesmo.

Será que alguém pode me ajudar a aprender como amar mais a Deus? Eu realmente quero que minhas "flores" tenham valor para Ele... o meu coração.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Está tudo bem se não está tudo bem

No Brasil, o direito constitucionalmente garantido à livre manifestação do pensamento é tratado na prática como um direito de segunda classe. Um dos mais eloquentes exemplos disso é a proibição judicial que algumas celebridades alcançam para a publicação de biografias não autorizadas a seu respeito. O caso mais famoso é o do cantor Roberto Carlos, que conseguiu impedir a distribuição de uma biografia que, supõe-se, contaria como perdeu uma perna. Há algumas semanas ele ganhou o reforço para essa causa de nomes como Caetano Veloso, Chico Buarque e Djavan, que, depois, voltaram atrás com a repercussão negativa da iniciativa.

Os argumentos contra as biografias não autorizadas me soam pífios. Fala-se que não é justo o outro ganhar dinheiro com sua vida ou que o país não está desenvolvido o suficiente para assimilar esse tipo de obra. A verdade é que há uma casta de intocáveis no Brasil, pessoas de quem só se pode falar bem. Pessoas cuja genialidade deve sempre ser exaltada, mas que não admitem ser apresentadas em toda sua falível humanidade. Eles tentam vender uma imagem impoluta que está longe da realidade.

E nesse ponto os cristãos em geral são celebridades. Eles também querem vender uma imagem distante da realidade, especialmente aos olhos dos não cristãos. Na pesquisa divulgada por David Kinnaman, que citei na semana passada, 85% dos não cristãos os vêem como hipócritas, ao passo que 47% dos cristãos, um percentual já bastante expressivo, também têm essa percepção.

Podemos relativizar as origens dela, podemos tentar deslegitimar o público pesquisado, mas dificilmente fugiremos da constatação de que alguma razão nós damos para sermos vistos como aquilo que nosso Mestre mais odiava: hipócritas. De alguma forma temos tentado vender uma imagem que, se olhada de perto, vai se revelar pura maquiagem. Afinal, o cristão precisa sempre se parecer um vencedor, alguém em paz, alguém sem grandes conflitos, sem grandes dúvidas, uma pessoa feliz e transbordante de simpatia e amor.

A saída para mudar essa percepção não é proibir biografias não autorizadas. Ou que as pessoas ao nosso redor nos julguem. A saída passa pela honestidade com nosss próprias fraquezas, pela humildade, pela tolerância e por estarmos mais dispostos a agir amorosamente do que a discursar sobre o amor (no que somos ótimos). Algumas igrejas norteamericanas já adotaram o slogan It is ok not to be ok para fomentar essa mudança.

Se ela não acontecer, que grande vantagem temos sobre os fariseus?